Agosto 27, 2026

O Teatro Dentro de Mim

Por Rogerio Souza
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O Teatro Dentro de Mim

 

Passei a vida inteira
achando que era eu.

Defendendo opiniões,
protegendo imagens,
colecionando mágoas,
vestindo personagens
e chamando tudo isso
de personalidade.

Eu me ofendia.
Eu discutia.
Eu queria vencer.

Mas quem era esse
que precisava vencer?

Um dia o silêncio respondeu.

E foi estranho.

Porque quando a voz se calou,
quando a mente parou
por apenas alguns instantes,
percebi uma coisa assustadora:

havia alguém falando dentro de mim
o tempo todo.

E esse alguém
não era exatamente eu.

Era a persona.

Antiga, astuta,
especialista em criar histórias,
em transformar sombras em inimigos,
diferenças em guerras,
medo em certezas
e ilusões em identidade.

Ela queria ser importante.

Queria parecer inteligente,
espiritual, forte, evoluída.

Queria ser o bonitão
até diante do espelho.

E enquanto ela representava,
eu permanecia escondido
atrás das cortinas.

Então compreendi:

a vida inteira
eu tinha assistido ao meu próprio teatro
sem perceber
que não era o ator.

Eu era o silêncio
por trás do palco.

A presença
que observa.

A essência
que não precisa vencer discussão,
nem defender um nome,
nem provar que existe.

Foi doloroso perceber.

Porque reconhecer a persona
é descobrir que, muitas vezes,
não fomos nós
quem escolhemos o caminho.

Fomos conduzidos.

Pelo medo.
Pelo orgulho.
Pela necessidade de aprovação.

E então começa a desconstrução.

Morre o personagem
que acreditava saber tudo.

Morre aquele
que precisava estar certo.

Morre a imagem
que se protegia
mesmo quando estava destruindo
aquilo que realmente importava.

E das cinzas
não nasce alguém perfeito.

Nasce alguém honesto.

Honesto consigo mesmo.

Porque não existe liberdade
enquanto continuamos mentindo
para o único ser
que nunca conseguimos abandonar.

A nós mesmos.

A alquimia começa assim:

fogo sobre aquilo que é falso,
água sobre aquilo que endureceu.

E, pouco a pouco,
a matéria é trabalhada.

O orgulho se dissolve.
O medo perde a voz.
O personagem se cansa.

E por baixo de tudo aquilo
que pensávamos ser,

permanece aquilo
que sempre esteve ali.

Silêncio.

Presença.

Essência.

Talvez evoluir
não seja se transformar
em alguma coisa maior.

Talvez seja apenas
parar de fingir.

Descer do palco.

Retirar a máscara.

E finalmente descobrir
quem somos
quando já não existe
ninguém dentro de nós
tentando interpretar
um personagem.

 

A Consciência Diante de Si Mesma

Não Deixe o Mundo Mais Escuro


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