O Demônio do Meio-Dia e o Acolhimento da Noite
Há um demônio que desperta ao meio-dia,
quando o sol revela aquilo que tentamos esconder,
quando o mundo se movimenta
e nós não conseguimos acompanhar.
A luz parece cobrar presença,
o dia exige movimento,
e a própria vida parece perguntar
por que ainda estamos parados.
Mas então a noite chega devagar,
e com ela vem um estranho acolhimento.
As ruas silenciam,
as cobranças diminuem,
e aquilo que durante o dia parecia insuportável
encontra um pouco de repouso na escuridão.
A noite não cura a ferida,
mas às vezes permite que ela doa menos.
E talvez por isso
não devamos temer a noite,
mas aprender com ela:
se a escuridão pode nos acolher,
que o dia nos encontre novamente em movimento.
Que atravessemos o demônio do meio-dia
sabendo que, depois dele,
sempre haverá uma noite —
e, depois da noite,
se Deus permitir,
uma nova manhã.
O tempo passa
mesmo quando não o vemos,
escorre pelas mãos
como água entre os dedos,
e a vida continua
mesmo quando permanecemos parados.
Há dias em que o relógio corre,
e nós nem percebemos.
Quando chega a noite,
perguntamos para onde foi o dia,
como se alguém tivesse roubado
as horas que eram nossas.
Mas ninguém roubou.
Nós apenas não estávamos lá.
Estávamos perdidos dentro da própria cabeça,
sentados diante do vazio,
esperando alguma coisa acontecer
enquanto o mundo inteiro
continuava acontecendo.
O sol nasceu,
os pássaros acordaram,
os insetos começaram seu trabalho,
as plantas cresceram em silêncio,
e nós permanecemos imóveis,
como se a existência tivesse esquecido
de nos chamar.
Mas chamou.
Ela chama todos os dias.
Às vezes com alegria,
às vezes com dor,
às vezes com uma tarefa pequena
que parece insignificante.
Uma casa para limpar.
Um corpo para cuidar.
Uma pessoa para ajudar.
Um trabalho para terminar.
Um livro para abrir.
Uma palavra para dizer.
Talvez não seja a grande missão
que sonhamos encontrar.
Talvez não seja ainda
o nosso verdadeiro ikigai,
o lugar perfeito
onde desejo, talento, necessidade
e propósito se encontram.
Mas ainda assim,
há algo que pode ser feito.
E fazer alguma coisa
é melhor do que desaparecer
dentro da própria espera.
Porque o tempo não espera.
Ele não pergunta
se estamos prontos.
Não diminui o passo
porque estamos tristes.
Não retorna
porque desperdiçamos ontem.
Ele simplesmente passa.
E talvez seja justamente por isso
que devemos nos levantar.
Não para vencer o mundo,
não para provar alguma coisa,
não para fugir da tristeza,
mas para dizer a nós mesmos:
eu estive aqui.
Hoje eu fiz alguma coisa.
Hoje eu cuidei de mim.
Hoje eu ajudei alguém.
Hoje minha existência
tocou alguma outra existência
e deixou, ainda que pequena,
uma marca de passagem.
Há pessoas que dariam tudo
pela saúde que desprezamos,
pelo movimento que abandonamos,
pela manhã que deixamos passar
sem sequer olhar para ela.
Há quem deseje caminhar
e não possa.
Há quem deseje trabalhar
e não consiga.
Há quem deseje simplesmente
levantar-se da cama
e participar novamente do mundo.
Por isso, quando pudermos,
que nossos pés se movam.
Mesmo devagar.
Mesmo sem vontade.
Mesmo carregando tristeza.
Porque talvez a força
não seja ausência de sofrimento.
Talvez força seja
continuar participando da vida
enquanto o sofrimento caminha ao nosso lado.
E quando chegar a noite,
quando o silêncio cobrir a casa
e o mundo parecer um pouco distante,
talvez ainda reste uma coisa:
a consciência de que hoje
não deixamos o dia morrer sozinho.
Fizemos alguma coisa.
E amanhã,
se Deus permitir,
haverá outra manhã.
Outra oportunidade.
Outra respiração.
Outra chance
de encontrar aquilo que ainda não conhecemos.
Porque ninguém sabe
qual será o acontecimento
que mudará sua visão do mundo.
Ninguém sabe
qual encontro virá.
Qual palavra.
Qual pessoa.
Qual livro.
Qual dor.
Qual milagre.
Qual surpresa.
Talvez a porta que hoje parece fechada
ainda esteja apenas entreaberta.
Por isso, permaneça.
Permaneça vivo
para descobrir o que vem depois.
O universo ainda respira.
As árvores continuam crescendo.
Os animais continuam acordando
e cumprindo seu pequeno destino.
O mundo continua chamando.
E nós também fazemos parte dele.
Somos feitos de movimento,
de contraste,
de queda e ascensão,
de silêncio e riso,
de perda e encontro.
A vida não é uma única cor.
É a luz atravessando o prisma
e revelando todas as outras.
Por isso, não procure viver
sem sofrimento.
Nem procure viver
somente de prazer.
Quem conhece apenas a alegria
pode se perder na própria euforia.
Quem conhece apenas a dor
pode esquecer que ainda existe céu.
Talvez a sabedoria esteja no meio:
sofrer sem se entregar ao desespero,
alegrar-se sem se perder no orgulho,
cair sem abandonar a dignidade,
vencer sem esquecer a humildade.
Respirar.
Continuar.
Servir.
Amar.
Aprender.
E, quando o tempo passar —
porque ele passará —
olhar para trás
e poder dizer:
eu não desperdicei completamente
o tempo que me foi dado.
Talvez seja isso viver:
não impedir o tempo de passar,
mas fazer com que,
enquanto ele passa,
nós também passemos pela vida.
Com os olhos abertos.
Com as mãos ocupadas.
Com o coração desperto.
E, mesmo nos dias mais escuros,
com uma pequena luz
guardada dentro de nós.
Porque enquanto houver amanhã,
a história ainda não terminou.
https://cristolucifer.com.br/a-sociedade-do-cansaco-e-a-cultura-da-estagnacao/
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Luz p’ra nós 🙏
Tocante 🙏🏻 Deus abençoe
Luz p’ra nós! 🙏🏽