Agosto 29, 2026

O Silêncio Também é uma Resposta

Por Rogerio Souza
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Quando a Oração Deixa de Ser um Pedido

Aprender a Querer o que é Justo

Entre o Pedido e a Lealdade

A Fé Depois do Silêncio

O Peso de Ser Filho

Quando Deus Não Faz o que Pedimos

A Lealdade Como Última Oração

Diante de Deus, um Dia de Cada Vez

A Oração dos que Aprenderam a Servir

 

Não venho diante de Ti
como quem exige ao céu
a realização dos próprios desejos,
nem como criança que aponta o dedo
para aquilo que quer possuir.

Venho falar.

Porque talvez a oração
não seja apenas pedir,
mas aprender a conversar
com aquilo que nos transcende.

 

Tu não és o carrasco
que aguarda nosso erro,
nem o velho indiferente
sentado além das estrelas.

És o Pai.

 

E nós,
mesmo quando crescemos,
continuamos pequenos diante do infinito.

Por isso aprendemos lentamente
a diferença entre querer
e merecer,
entre desejar
e compreender.

Às vezes pedimos.

E nada acontece.

 

Então a noite parece maior,
o silêncio parece resposta,
e a solidão pesa
como se o próprio céu
tivesse fechado as portas.

 

Mas talvez também exista amor
naquilo que não recebemos.

Talvez algumas portas fechadas
sejam mãos que nos impedem
de caminhar para o abismo.

 

Porque nem sempre sabemos
o que é melhor para nós.

E aquele que confia
não precisa transformar Deus
em instrumento dos próprios desejos.

Ele pode dizer:

Se for justo,
se for coerente,
se for da Tua vontade,
que aconteça.

 

E, se não acontecer,
que eu tenha humildade
para aceitar.

Então aprendemos a pedir diferente.

Não por riqueza.

Não por glória.

Não para que o mundo
se curve diante do nosso nome.

Pedimos pelo irmão.

 

Pelo que sofre em silêncio.

Pelo que perdeu o caminho.

Por quele que luta contra os próprios pensamentos.

Por aquele que enfrenta a justiça,
a doença,
a solidão,
a ausência,
o medo.

E talvez exista uma força
que nasce quando deixamos
de querer ser o centro.

 

Porque a oração que pede pelo outro
não procura possuir o milagre.

Procura apenas
ser passagem.

Como uma vela acesa
na escuridão,

que não pergunta
quem merece sua luz.

Ela simplesmente queima.

E talvez viver seja isso:

queimar.

 

Entregar alguma coisa de nós
para que outra coisa possa nascer.

A vida troca.

A vida pesa.

A vida tira.

A vida devolve.

 

Há encontros que nos salvam
e perdas que nos transformam.

Há dias em que vencemos
e dias em que apenas sobrevivemos.

E tudo isso participa
do contorno do caos.

A simetria não elimina a escuridão.

Ela aprende a existir
ao redor dela.

Por isso não quero uma vida
sem sofrimento.

 

Quero força para atravessá-lo.

Não quero ser poupado
de toda dificuldade.

Quero aprender com ela.

Porque uma criança deseja
que o pai retire todos os obstáculos.

Um filho amadurecido
aprende a perguntar:

Pai,
o que devo fazer com aquilo
que não podes simplesmente retirar?

 

Talvez seja aí
que comece a verdadeira fé.

Não quando recebemos.

Mas quando não recebemos
e ainda assim permanecemos.

Não quando tudo dá certo.

Mas quando tudo desaba
e continuamos leais.

 

Porque a lealdade
não depende da recompensa.

Ela permanece
quando o milagre não vem.

Permanece quando a resposta
é diferente daquela que queríamos.

Permanece quando precisamos
caminhar mais um dia
sem compreender o caminho inteiro.

E talvez seja isso
que Deus realmente procura:

não servos desesperados
tentando comprar Seu favor,

mas companheiros.

Consciências capazesde aprender,

de errar,

de sofrer,

de recomeçar,

e ainda assim permanecer.

 

Um pouco mais hoje.

Um pouco mais amanhã.

Sem a ansiedade
de resolver toda a existência
em uma única noite.

Depois de fazer tudo
o que podíamos fazer,

um pouco mais.

Não por culpa.

Não por medo.

 

Mas porque transbordar
é diferente de se destruir.

E quando finalmente entendemos
que não somos nós
quem abrimos todas as portas,

surge uma estranha tranquilidade.

Fazemos nossa parte.

Esperamos.

Observamos.

E quando o chamado chega,
mesmo que seja pequeno,
respondemos.

 

Porque talvez a grandeza
não esteja em realizar milagres.

Talvez esteja em permanecer disponível
para aquilo que é justo.

E se algum dia
eu tiver novamente um pedido,

que ele seja simples.

Que os que amo encontrem paz.

Que os que sofrem encontrem lucidez.

Que aqueles que se perderam
encontrem novamente o caminho.

Que o Reino floresça.

Que o Mestre seja feliz.

E, quanto a mim,

se houver alguma coisa
que eu ainda precise aprender,

que eu tenha coragem
de aprender.

 

Se houver alguma coisa
que eu precise perder,

que eu tenha humildade
para deixar partir.

Se houver alguma coisa
que eu precise fazer,

que eu reconheça o chamado.

E se eu estiver errado,

que eu seja corrigido.

Porque talvez a pior coisa
não seja ser disciplinado pelo Pai.

Talvez seja ser abandonado
à própria vontade,

sem correção,

sem direção,

sem ninguém que nos diga:

Você está se perdendo.

 

Então, se ainda houver
alguma oração dentro de mim,

que ela não diga:

“Dá-me tudo o que quero.”

Que diga:

“Ensina-me a querer
aquilo que é digno.”

 

E se eu não puder
mudar o mundo inteiro,

que eu possa mudar
alguma pequena parte dele.

Um irmão.

Um animal.

Uma palavra.

Um gesto.

Um dia.

E amanhã,

novamente,

um pouco mais.

Até que a vida inteira
se transforme em oração,

não porque pedimos muito,

mas porque aprendemos
a servir.

 

E, quando finalmente
não houver mais nada a dizer,

que reste apenas
a lealdade.

E o silêncio.

E a certeza humilde
de que ainda estamos aqui,

caminhando,

aprendendo,

crescendo,

diante de Deus.

A Simetria e a Súplica

Não mais a súplica cega da infância,
Nem o pedido egoísta por facilidade.
Erguemos as mãos em justa ressonância,
Buscando a lucidez da maturidade. 

Acende-se a chama na vela escura,
Fechando o circuito da nossa intenção,
Queimando o abstrato na noite pura,
No transbordar sincero do coração. 

A dor que educa, o peso que ensina,
Não é abandono de um juiz severo
É prova de amor que nos disciplina,
Moldando o caráter que Deus quer sincero.

Pois “você é filho, não é todo mundo”,
E a lealdade é o laço mais profundo.
Não sejamos parasitas da Graça divina, 

Mas companheiros na senda que ilumina. 

Na eterna dança do sofrimento e da luz,
Onde cada catarse à ordem nos conduz,

A verdade se firma no esforço que fazemos

A simetria contorna o caos que vivemos. 

 

https://www.youtube.com/watch?v=yj9QmKmfmdA

 

 

A Consciência Diante de Si Mesma


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