Setembro 11, 2026

Vencendo a Entropia

Por Rogerio Souza
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Há folhas sobre a terra,
há troncos caídos,
há mato crescendo onde ninguém pediu,
há o tempo espalhando suas coisas
sem perguntar se queremos.

 

E então vem o homem
com seu rastelo nas mãos.

Não para vencer a natureza,
mas para conversar com ela.

 

Junta as folhas,
corta os galhos,
abre caminhos,
limpa a passagem da água,
acende o fogo.

 

E, por um instante,
parece que o caos obedeceu.

Mas não é o caos que foi vencido.

É a nossa pequena parcela de mundo
que ganhou forma.

 

Há um mistério no trabalho.

Um martelo batendo,
uma serra cortando,
uma pá encontrando a areia,
a betoneira girando,
o carrinho de mão passando.

 

Para alguns,
é apenas barulho.

Para nós,
é música.

Porque cada ruído anuncia
que alguma coisa está nascendo.

 

Uma parede onde havia vazio.
Um caminho onde havia mato.
Uma casa onde havia apenas terra.
Uma família onde antes havia distância.

 

E assim o Reino cresce:

não como uma ideia,
mas como matéria.

Pedra sobre pedra.
Mão sobre mão.
Irmão ao lado de irmão.

 

O sonho começa a ocupar espaço.

E então chega a noite.

As máquinas se calam.
Os motores descansam.
As pessoas desaparecem atrás das portas.

 

E aquilo que sempre esteve ali
finalmente pode ser ouvido.

A água.
O vento.
As folhas.
Os grilos.
As criaturas escondidas na escuridão.

 

O silêncio não é vazio.

O silêncio é aquilo que sobra
quando o mundo para de gritar.

E no alto das árvores
o vento começa a caminhar.

 

Primeiro lá longe.

Depois mais perto.

Como passos atravessando o céu.

A árvore se move
antes que a brisa alcance o rosto.

 

E percebemos:

há forças que não vemos
até que elas passem por nós.

Então vem o fogo.

Pequeno sol feito pelas mãos.

 

Desde os tempos antigos
ele ilumina a noite,
aquece o corpo,
reúne as pessoas.

Diante dele
o homem aprendeu a olhar para cima,
para dentro
e para os que vieram antes.

 

O fogo é luz,
é calor,
é transformação.

É matéria obedecendo
àquilo que a vida descobriu.

 

Hoje temos telas,
cidades,
máquinas,
redes e mundos virtuais.

Mas antes de tudo isso
havia uma chama.

 

E talvez ainda sejamos
a mesma humanidade
sentada diante dela,
procurando compreender
o Grande Mistério.

 

Porque viver é organizar.

É construir um abrigo.
Encontrar alimento.
Vestir o corpo.
Cuidar da água.
Levantar um teto.

 

É transformar matéria
em possibilidade.

É olhar para um pedaço de terra
e enxergar uma casa.

Olhar para um grupo de pessoas
e enxergar uma família.

 

Olhar para o caos
e dizer:

aqui pode existir ordem.

Mas a entropia não dorme.

A árvore cresce
e derruba suas folhas.

O cupim constrói seu reino
enquanto destrói outro.

 

A vida prospera
e, ao mesmo tempo,
produz aquilo que um dia
precisará ser reorganizado.

A natureza não escolhe um lado.

Vida e entropia
dançam eternamente.

 

Yin e Yang.

Construção e ruína.

Nascimento e decomposição.

Ordem e desordem.

E talvez a vitória da vida
não seja eliminar a entropia.

 

Talvez seja simplesmente
continuar construindo.

Por isso existe o rastelo.

Existe a enxada.

Existe a roçadeira.

Existe a pá.

 

Existe a mão humana.

Ferramentas pequenas
diante da imensidão do universo,

mas enormes
diante da realidade que tocamos.

 

Porque quando alguém limpa um caminho,
quando alguém constrói uma casa,
quando alguém planta alimento,
quando alguém aquece os irmãos diante da fogueira,

está dizendo ao universo:

eu estou aqui.

Eu vou colocar alguma ordem
naquilo que estiver ao meu alcance.

 

E talvez seja por isso
que o dinheiro não consiga comprar tudo.

Há quem ofereça milhões
e ainda assim não compre
a satisfação de uma vida simples.

Porque existe uma riqueza
que não cabe em conta bancária.

 

É poder sentar diante do fogo.

Ouvir o vento.

Encontrar os irmãos.

Ver uma construção surgir.

Ter um lugar para voltar.

 

Sentir que aquilo que um dia
era apenas sonho
agora possui paredes,
terra,
água,
luz
e gente.

 

Talvez riqueza seja isso:

não precisar trocar a própria vida
por aquilo que o mundo diz
que deveria desejar.

 

O Reino não é apenas aquilo que se constrói.

É aquilo que acontece
enquanto construímos.

É a união.

É o trabalho.

É o encontro.

É a fogueira no inverno.

É o silêncio depois do barulho.

É a ordem surgindo lentamente
no meio da desordem.

É a vida
fazendo o que a vida sempre fez:

crescendo.

Criando.

Transformando.

Resistindo.

 

E quando o último fogo se apagar,
quando as folhas voltarem a cobrir o chão,
quando a madeira retornar à terra,

a entropia ainda estará lá.

Esperando.

Paciente.

Porque ela nunca desaparece.

 

Mas amanhã haverá novamente
um homem com um rastelo nas mãos.

E alguém levantará uma parede.

Alguém plantará uma semente.

Alguém carregará água.

Alguém acenderá uma fogueira.

Alguém chamará um irmão.

 

E, mais uma vez,

no coração do Grande Mistério,

a vida escolherá construir.

Não para vencer o universo,
mas para criar um lugar
onde seja possível viver dentro dele.

 

A TEIA, O NINHO E A AMIZADE

 

 

 

 O Plasma Ancestral e o Grande Mistério

              No peito escuro da noite calma,

            A chama dança e o vento se esgalha.

                O fogo antigo aquece a alma,

            Enquanto o tempo no chão se espalha.

              Com o rastelo e as mãos no cabo,

                 Lutamos contra a entropia,

            Tirando a folha, cortando o graveto,

                Trazendo ordem à luz do dia.

                Antes do fogo era só o raio,

              Rasgando o céu em clarão e medo;

              Hoje a fogueira no chão ensaio,

            Para escutar do universo o segredo.

               O vento passa nas altas copas,

               Como se fossem passos no céu.

           Lá em cima a brisa desfila em tropas,

            Lá embaixo o mato em silêncio e véu.

            No Reino erguer a serra e o tijolo,

              O som da pá e da parafusadeira,

               Não é ruído nem fruto do tolo,

             É a vida vencendo de vez a poeira.

           Cupins na madeira constroem impérios,

             A vida reina em qualquer recanto.

            Longe dos homens e seus artifícios,

            A graça divina nos cobre com manto.

               Não busco o ouro nem a ilusão,

              Nem as apostas de um mundo vão;

              Fico no fogo, no vento e no pão,

            E no Grande Mistério do meu coração.

 

 

 

 

https://youtu.be/tbOUsoQT0ek

 

 

O Arquivo do Tempo

 

O Inevitável Eco da Intenção 


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