Nenhuma Experiência é Individual
Houve um dia em que despertei,
sem saber de onde vinha,
sem recordar o caminho percorrido,
mas reconhecendo a casa, os rostos,
o mundo que já me pertencia.
Como se existir fosse uma porta que se abre sem aviso,
e a consciência, até então adormecida,
de repente descobrisse que estava viva.
Por muito tempo, pensei ser único,
o protagonista de um despertar secreto,
como se ninguém antes de mim tivesse atravessado o mesmo mistério,
como se a existência começasse no instante em que a percebi.
Mas o tempo revela suas ironias.
Aquilo que julgávamos exclusivo aparece nos olhos de outros,
nas memórias que se repetem,
nos relatos de desconhecidos que nunca cruzaram nossos caminhos.
E então surge a pergunta:
se tantos viveram o mesmo, o que há de tão individual em nós?
Será que somos ilhas conscientes
ou apenas diferentes margens de um mesmo oceano?
A internet aproxima os testemunhos,
desfaz a solidão das experiências,
e aquilo que parecia loucura particular encontra milhares de vozes.
O pensamento que escondíamos também habita outras mentes.
Mudam os rostos, mudam os nomes,
mudam os cenários e os tempos,
mas os erros atravessam gerações,
as dores encontram novos corpos,
e os mesmos acontecimentos reaparecem sob outras formas.
Talvez a consciência seja um tecido que nenhuma fronteira consegue dividir,
um corpo imenso feito de experiências,
percorrendo incontáveis existências,
reconhecendo-se em cada encontro,
sem compreender inteiramente o que é.
Deus cria os momentos,
e nós atravessamos suas possibilidades,
como se a vida fosse um revezamento
em que cada consciência assume um lugar,
enquanto o tempo prossegue
e a história troca seus personagens.
Mas há um paradoxo nessa unidade:
se tudo é um, quem encontra quem?
Se tudo pertence à mesma existência, de onde nasce a surpresa?
Como experimentar a alegria se nada puder nos surpreender?
Talvez a individualidade seja o intervalo que permite à unidade respirar,
o véu que transforma o conhecido em descoberta,
a distância necessária para que o encontro tenha significado.
Porque compreender que tudo se conecta não significa estar preparado para sentir.
Há verdades que, quando nos atravessam, não oferecem paz imediata,
mas abrem abismos onde antes havia chão.
E, quando a consciência se expande,
as fronteiras perdem seus contornos.
O espaço deixa de ser cenário,
o pensamento ultrapassa a palavra,
e o próprio eu parece dissolver-se na imensidão daquilo que percebe.
Ser tudo pode parecer plenitude,
mas também pode significar vazio.
Pois, quando nenhuma fronteira permanece,
quando tudo está dentro de nós,
o que resta para chamar de eu?
Como existir sem distinguir o que somos daquilo que nos transcende?
Por isso, bendito seja o mundo que interrompe nossos pensamentos,
o cachorro que late no quintal,
o vizinho que rompe o silêncio,
o passarinho que anuncia a manhã,
o sol que retorna sem nos consultar.
Há vida além da nossa percepção,
há algo que resiste ao nosso pensamento,
há um mundo que não obedece à vontade de uma consciência,
e talvez seja justamente essa resistência que nos devolva a nós mesmos.
Precisamos de um chão sob os pés,
de uma presença que nos tranquilize,
de laços que resistam ao abismo,
de certezas simples e renovadas:
o dia amanhecerá, a vida continuará,
e não precisamos compreender tudo para continuar existindo.
Diante de nós, o mundo se desorganiza.
Guerras se multiplicam,
as antigas certezas se desfazem,
a realidade parece mudar de forma,
e a entropia avança sobre as estruturas que construímos.
Mas, entre a dispersão e o caos,
o ser humano ainda pode criar ordem.
Pode reunir o que está separado,
cultivar vínculos,
proteger o que merece permanecer,
construir harmonia onde tudo ameaça ruir.
Talvez nossa força não esteja em provar que somos independentes,
mas em reconhecer nossas conexões,
sem abandonar aquilo que nos distingue,
sem transformar a unidade em prisão nem a individualidade em isolamento.
É na família, no grupo, na união,
que encontramos abrigo contra o caos,
um espaço onde a confiança se reconstrói,
onde a presença devolve o equilíbrio,
onde a existência deixa de ser abismo e volta a ser caminho compartilhado.
Não somos especiais por estarmos sós,
nem precisamos ser únicos para ter valor.
Nossa grandeza talvez resida na missão que conseguimos sustentar,
na coesão que aprendemos a construir,
na paz que oferecemos uns aos outros.
Se nenhuma experiência é individual,
que essa descoberta nos torne humildes.
Que reconheçamos nos outros as perguntas que também nos habitam,
as quedas que poderíamos sofrer,
as possibilidades que ainda desconhecemos.
E que, mesmo diante do mistério, saibamos preservar o que nos mantém vivos:
a surpresa de um novo encontro,
a alegria de uma descoberta,
o calor de uma presença,
a beleza de pertencer sem deixar de ser quem somos.
Pois talvez a consciência seja uma só,
mas a vida exige cuidado,
o amor exige presença,
e a existência exige construção.
Somos parte de algo maior,
mas é aqui, entre mãos e rostos, entre o caos e a criação,
que precisamos aprender a transformar a unidade em vínculo
e a consciência em Reino de paz.
O TECIDO DO TODO
(Poema inspirado na reflexão sobre a Consciência Coletiva)
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Lembro do dia em que o mundo acendeu,
Aos quatro ou cinco anos, pensei ser só meu.
Um teste de memória, o início de um eu,
Mas a ilusão da solidez logo se dissolveu.
Achei que meu pensamento era segredo guardado,
Que o medo e a dor eram meu trilho isolado.
Mas o eco dos outros mostrou o bordado:
Nenhuma experiência caminha em separado.
A consciência é um corpo, um vasto oceano,
Onde a mente individual é só mero engano.
As pessoas trocam de lugar no cenário humano,
Mas o momento é o mesmo no tear soberano.
Ser tudo é o abismo onde a forma se esvai,
Na expansão sem limites, o eu se desfaz e cai.
Quando se sente o cosmos, a voz já não vai,
E o vazio do infinito assusta e atrai.
Por isso louvo o canto do pássaro na alvorada,
O latido do cão, a voz da vizinhança acordada.
Pequenos ruídos do mundo na caminhada,
Que devolvem o chão e a alma ancorada.
Em um mundo em desordem, de certezas líquidas no ar,
Onde a entropia tenta tudo desmoronar,
Nos unimos no grupo, no afeto e no olhar,
Para criar um refúgio e juntos poder respirar.
”https://www.youtube.com/watch?v=sUPBLTi4QZg
Obrigada pelos seus vídeos, elucidam. Luz p’ra nós!
Deus te abençoe
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