O Fogo, a Montanha e a Percepção
ENTRE O FOGO E A MONTANHA
Poema inspirado na transcrição “Parte 3: Pré-Encontro Veterano EDL 2023”
Há gestos que parecem pequenos,
mas carregam o peso de um sinal:
uma chama acesa no meio dos outros,
um silêncio que pode ser respeito,
um descuido que alguém interpreta
como se fosse uma verdade inteira.
Por isso, antes de tocar o ritual,
aprende a olhar para quem está ao lado.
Nem tudo o que para ti é nada
passa despercebido ao mundo.
A intenção mora dentro do peito;
o gesto, porém, caminha entre as pessoas.
Acende a vela com paciência.
A chama não exige pressa,
e a cera precisa encontrar seu lugar.
Até o fogo ensina:
para fixar alguma coisa,
às vezes é preciso aquecer
a base e aquilo que se deseja firmar.
O ritual não termina na chama.
Continua no cuidado,
na atenção aos irmãos,
na lenha que se deixa organizada,
no lixo que se leva embora,
na luz que se apaga ao partir.
Respeitar o sagrado também é
não abandonar a própria responsabilidade.
E quando a fogueira chama,
não é preciso obedecer de imediato.
Podes permanecer sentado,
sentir o frio, escutar o silêncio,
até compreender o que te aproxima.
O fogo aquece as mãos;
a presença, talvez, aqueça algo mais.
Há trocas que não fazem barulho:
tu te aproximas,
e a chama te devolve calor.
Se uma parte de ti se entrega ao fogo,
que seja com consciência,
não por descuido nem vaidade.
Recebeste tanto do mundo
que até um pequeno sacrifício
pode lembrar a gratidão.
Mas não confundas coragem com imprudência:
a vida também é algo a proteger.
Há dias em que desistir parece sensato,
porque o mundo pesa,
porque a esperança cansa,
porque a voz parece não alcançar ninguém.
Então alguém surge no caminho,
uma palavra encontra o lugar exato,
e aquilo que estava prestes a terminar
ganha outra oportunidade.
Desistir de desistir
não significa nunca parar.
Significa, às vezes, respirar,
rever o rumo,
ficar em silêncio por um tempo
e retornar quando houver algo verdadeiro
que ainda mereça ser dito.
A palavra pode seguir sem plateia.
Nem toda semente floresce diante dos olhos,
nem todo esforço recebe aplausos.
Ainda assim, se há algo que precisa ser feito,
talvez a primeira obrigação
seja tentar — com humildade,
sem exigir que todos compreendam.
A estrada atravessa a mata,
o rio aparece entre as pedras,
e a montanha cresce diante de nós.
O lugar muda, o ar muda,
o horizonte abre novas distâncias.
À noite, vagalumes acendem
pequenos sinais no escuro,
luzes tão frágeis
que a câmera mal consegue guardar.
Nem tudo o que existe
se deixa registrar numa tela.
A lua vista de perto não cabe na fotografia;
a grandeza da paisagem não cabe no enquadramento.
Há experiências que pedem presença:
olhar, escutar, caminhar,
e admitir que a memória também
mistura sonho, surpresa e realidade.
Diante da altura, sente-se o corpo.
Diante da água, mede-se o passo.
Diante da estrada, observa-se o perigo.
Não basta contemplar o abismo:
é preciso cuidar de quem caminha conosco.
A consciência não diminui a aventura;
ela permite que todos voltem para casa.
A coragem não é andar sozinho
como se nada pudesse acontecer.
É perceber o terreno,
reconhecer os limites,
avisar quem vem atrás,
e não deixar que a empolgação
se transforme em descuido.
Há cumprimentos feitos com a mão,
outros apenas com a cabeça.
Às vezes, um olhar basta;
às vezes, é melhor demonstrar respeito.
Não existe um gesto único para todo encontro:
há o momento, a pessoa,
a sensibilidade de quem percebe.
Na dúvida, que a humildade fale primeiro,
sem fazer da reverência uma humilhação.
Também a natureza nos ensina
a desconfiar das certezas apressadas.
O som vem de algum lugar,
mas nem sempre sabemos de onde.
Vemos uma forma no verde,
enquanto outro enxerga algo diferente.
A percepção não é uma janela perfeita:
é também pergunta,
limite,
possibilidade de rever o que julgávamos ver.
Quando a sintonia entre as pessoas cresce,
um pensamento parece encontrar o outro,
um silêncio passa a ser compartilhado,
e o instante ganha profundidade.
Talvez nem tudo precise ser explicado
para que seja vivido com intensidade.
Mas sentir muito não é saber tudo;
a experiência também pede discernimento.
O mundo está cheio de mistérios,
e a humanidade ainda constrói
torres, estradas, máquinas,
pontes entre lugares distantes.
O impossível de ontem
pode tornar-se ferramenta amanhã.
Olhar para essas obras
é lembrar que ainda ignoramos muito
sobre aquilo que somos capazes de realizar.
Quem acredita ter alcançado o topo
corre o risco de transformar conhecimento em orgulho.
Mesmo quando subimos,
mesmo quando enxergamos mais longe,
permanece algo maior do que nós.
A humildade não exige negar a própria grandeza;
exige lembrar que ela não é absoluta.
Acima de toda certeza,
há espaço para aprender.
Acima de toda conquista,
há espaço para agradecer.
E quando a altura nos faz sentir pequenos,
talvez não seja para nos diminuir,
mas para corrigir a medida
com que julgamos a nós mesmos.
Se a montanha oferece silêncio,
se a água exige atenção,
se o fogo reúne pessoas,
então cada elemento pode abrir
uma porta para a reflexão.
A natureza não precisa falar em palavras
para nos convocar à presença.
Basta que estejamos dispostos
a escutar sem fingir que já sabemos.
Dá graças enquanto lavas as mãos,
enquanto sobes o caminho,
enquanto divides o alimento,
enquanto alguém te oferece ajuda.
Não esperes um grande altar
para reconhecer o que é precioso.
A gratidão também cabe
nos gestos comuns de cada dia.
E se a verdade te acompanha,
não precisas gritar para que ela exista.
Segue firme, mas revê teus passos;
sobe, mas não desprezes quem ficou abaixo;
procura o alto, mas não percas o chão.
Que a palavra tenha coerência,
que a coragem caminhe com o cuidado,
que a fé não expulse a humildade.
Talvez chamem de louco
quem escolhe continuar procurando,
quem vê no cotidiano uma pergunta,
quem encontra no caminho
mais do que uma paisagem.
Ainda assim, não basta ser diferente:
é preciso aprender com o que se vive,
reconhecer os próprios erros
e transformar a experiência em responsabilidade.
Eu sigo pela estrada,
entre o fogo, a mata e a montanha.
Não porque conheça todas as respostas,
mas porque ainda há muito a descobrir.
Se o amanhã já se anuncia no presente,
que eu esteja desperto para recebê-lo;
se o passado ainda me ensina,
que eu não o transforme em prisão.
E quando a noite cobrir o caminho,
que uma pequena chama permaneça:
não como prova de que sei tudo,
mas como sinal de que continuo aqui,
disposto a aprender,
a cuidar,
a agradecer
e a recomeçar.
A verdade não perde sua força
porque poucos a escutam.
O caminho não deixa de existir
porque alguém duvida dele.
E a esperança, quando parece extinta,
pode voltar a arder
na chama que alguém compartilha.
Viver, afinal,
talvez seja isso:
subir sem se tornar arrogante,
sentir sem se declarar dono do mistério,
servir sem exigir reconhecimento,
e continuar — com os pés na terra,
os olhos abertos
e a humildade voltada para o alto.
O FOGO, A MONTANHA E A PERCEPÇÃO
No silêncio sagrado da chama acesa,
A cera derrama no calor da vela,
Um ritual simples diante da natureza,
Onde a alma desperta e a fé se revela.
Servir ao fogo e ao calor do momento,
Na fogueira que chama o irmão e o amigo,
Decidir não ceder ao pesado vento,
E desistir de desistir no abrigo.
Subindo as montanhas de vento e altitude,
Onde o verde se expande e a terra se mostra,
A caminhada ensina a profunda virtude,
Que a verdadeira busca a alma comprova.
O som da cachoeira nas pedras do chão,
As árvores distantes como pequena salsinha,
Perceber a vida além da visão,
Sentir a grandeza que o alto desenha.
Ver sem os olhos a luz do mistério,
Como a vela no escuro que ensina a focar,
Caminhar com respeito, com tom sério,
Abaixo do Criador, aprender a amar.
Dobrar os joelhos em gratidão sincera,
Na montanha sagrada onde o olhar se amplia,
Viver para a verdade que o peito espera,
E encontrar no topo a eterna harmonia.
”https://www.youtube.com/watch?v=jRlAOgc3vXw
Lpn
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Luz p’ra nós!