Outubro 17, 2026

FOGUEIRA DA ALMA

Por Rogerio Souza
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O peso da existência e a busca de leveza

 

Há quem atravesse a guerra com os olhos
e siga adiante como quem muda de tela;
há quem escreva, diante da dor alheia,
palavras vazias, sem sentir o peso dela.

 

Talvez a distância invente um abrigo,
talvez o costume nos ensine a não ver;
mas basta um rosto entre os escombros
para a consciência voltar a doer.

 

Enquanto uns disputam mapas e fronteiras,
outros são arrancados do próprio lar;
há vidas transformadas em números,
há destinos obrigados a marchar.

 

E quem contempla a guerra de longe
não sabe se um dia a verá chegar;
ninguém escolhe todas as circunstâncias,
nem conhece o preço de ter de lutar.

 

O mundo se move como um tabuleiro:
cada peça empurra outra em direção ao fim.
Mas quem lucra com o fogo que se espalha?
Quem decide quem deve morrer por alguém?

 

As notícias vestem muitas narrativas,
as vozes repetem o mesmo refrão;
por trás de cada discurso, convém perguntar:
quem ganha poder, quem perde o chão?

 

Chamar o outro de monstro encerra a conversa,
transforma o adversário em coisa sem voz.
Mas a palavra que apaga a humanidade
pode preparar mais violência entre nós.

 

Não basta escolher um lado e fechar os olhos,
nem repetir certezas para se proteger;
é preciso ler, investigar, confrontar ideias,
ter coragem de rever o que se pensa saber.

 

E quando a Bíblia volta às mãos inquietas,
quando alguém se dispõe a ler por si,
talvez a pergunta não seja quem venceu,
mas o que ainda podemos descobrir.

 

A fé não precisa expulsar a razão,
nem a ciência precisa expulsar o sagrado.
Há perguntas que pedem estudo e cuidado,
há mistérios que nos deixam maravilhados.

 

Talvez a verdade não seja um troféu
que alguém ergue acima da multidão;
talvez exija humildade diante do imenso
e trabalho constante de revisão.

***

Hoje acendi uma fogueira sob a chuva,
entre folhas caídas, madeira e resíduo.
O que parecia apenas resto esquecido
guardava pequenos sinais de vida.

 

Havia bolor, insetos, matéria em mudança,
o tempo trabalhando sem pedir atenção;
aquilo que muitos chamariam de sujeira
podia devolver nutrientes ao chão.

 

A terra alimenta aquilo que a alimenta:
recebe, transforma, devolve, renova.
O que termina pode servir de começo,
o que se desfaz pode preparar vida nova.

 

Também a cinza encontra outro destino,
também o fogo transforma sem desprezar;
há uma sabedoria no ciclo das coisas,
uma lição discreta no que vai se queimar.

 

No Reino, limpar também é cuidar,
reciclar também é saber servir;
a tarefa mais simples pode ser sagrada
quando a fazemos atentos ao que há por vir.

 

E então compreendi, ao mexer nas brasas,
que o sagrado não exige aparência perfeita:
pode morar no jardim depois da tempestade,
na mão que trabalha, na casa imperfeita.

 

Se o lugar é amado, o cuidado se amplia;
se a vida é sagrada, o olhar muda também.
Até o animal que cruza o nosso caminho
merece mais presença do que às vezes tem.

***

Lavo as mãos e converso em silêncio,
peço saúde, equilíbrio e proteção;
que eu possa cumprir melhor minhas tarefas,
sem ferir o corpo, o outro ou o coração.

 

Que eu saiba servir sem buscar aplauso,
que a minha presença tenha alguma utilidade;
que eu fale no momento em que for preciso
e aprenda a calar com serenidade.

 

Que eu seja justo quando a justiça for necessária,
misericordioso quando houver dor;
que a bondade não se transforme em vaidade,
nem o serviço se disfarce de superioridade.

 

Não peço que a vida obedeça aos meus planos,
nem que a chuva se curve à minha vontade;
peço força para acolher o que vier
sem abandonar a responsabilidade.

 

Se a chuva permite, sigo trabalhando;
se aumenta, procuro um lugar para me abrigar.
Conversar com Deus, para mim, é estar presente,
é aceitar o caminho sem deixar de caminhar.

 

A oração pode nascer de um gesto pequeno:
uma mão lavada, uma chama acesa,
um cuidado com a planta, o bicho, a casa,
um pedido sincero diante da incerteza.

 

Não é fugir da realidade com palavras,
nem fingir que a dor deixou de existir.
É buscar, no meio do peso do mundo,
um modo mais consciente de prosseguir.

***

A existência troca nossas perspectivas:
o abrigo pode virar tempestade,
o corpo forte pode conhecer o medo,
e a rotina pode perder a estabilidade.

 

Quem hoje descansa talvez amanhã enfrente
uma estrada que nunca escolheu percorrer.
Por isso, não zombemos da fragilidade:
não sabemos o que alguém terá de viver.

 

A guerra não é jogo, tela ou espetáculo;
não há reinício para quem fica no chão.
Por trás de cada uniforme existe uma história,
uma família, um medo, uma respiração.

 

E quem sofre por amor ou por falta de dinheiro,
quem se sente rejeitado ou sem direção,
também carrega um mundo que não vemos,
também precisa de escuta e compreensão.

 

A dor não é uma competição de sofrimentos,
nem perde valor por parecer menor.
Mas olhar para a tragédia de outros povos
pode ampliar o espaço do nosso amor.

 

Há quem chore em silêncio, há quem se enfureça,
há quem não consiga sequer começar.
Não sabemos quais pesos alguém sustenta
nem quanto esforço custa continuar.

 

Por isso, antes de julgar uma vida,
perguntemos o que a levou até ali.
Talvez uma presença, uma palavra ou cuidado
seja a ponte que faltava para seguir.

 

Se a ansiedade é fogo sem saída,
se a energia se acumula sem direção,
precisamos encontrar um modo de transformá-la:
trabalho, descanso, conversa, criação.

 

Viver também é queimar energia,
mas é preciso aprender a renovar;
não basta manter a chama acesa,
é preciso saber quando parar.

***

Há quem procure o segredo dos centenários
na comida, no exercício, no lugar;
há quem conte os hábitos e as rotinas,
tentando a fórmula exata encontrar.

 

Mas por que não perguntar também
o que dá sentido aos dias de alguém?
Em que acredita, o que ama, o que o sustenta,
que vínculos conserva, que paz mantém?

 

Não existe resposta simples para a vida,
nem uma receita que sirva a todos nós.
A longevidade não cabe numa única regra,
e o mistério não se cala numa só voz.

 

Talvez viver bem seja uma trama de fatores:
corpo, ambiente, trabalho e relação;
talvez a fé seja, para alguns, uma maneira
de encontrar presença e orientação.

 

Não é preciso negar o que a ciência revela,
nem transformar crença em prova universal.
É possível estudar o corpo e cuidar da alma,
sem fazer de uma fronteira um muro final.

 

Cada pessoa procura a própria sintonia,
com as ferramentas que aprendeu a usar.
O importante é que o saber não vire arrogância,
nem a fé nos impeça de questionar.

***

Também aprendo que talento sem traquejo
pode tropeçar quando chega a ocasião;
não basta acertar por força ou impulso:
é preciso perceber o ritmo da situação.

 

A lógica organiza, o abstrato abre caminhos,
a prática ensina o que a teoria não vê.
Há momentos em que a técnica nos conduz,
e outros em que é preciso sentir para compreender.

 

Nem toda vitória nasce de uma fórmula,
nem todo erro revela incapacidade.
Às vezes, falta apenas encontrar o compasso
entre a intenção, o gesto e a realidade.

 

Como uma árvore caída no caminho,
que alguém decide mover sem anunciar,
há gestos que nascem de um impulso discreto
e tornam mais fácil a vida de quem vai passar.

 

Não somos grandes por parecer invencíveis,
nem úteis por falar de feitos sem fim.
Talvez a grandeza esteja no serviço silencioso,
naquilo que melhora o mundo ao redor de mim.

 

E se algo extraordinário acontece,
não o transformemos em vaidade ou poder.
A gratidão devolve o gesto à sua origem:
há muito que recebemos sem compreender.

***

Pensei em guerra, em fogo, em oração,
em plantas, em sofrimento e longevidade;
pareciam fios soltos dentro da mente,
até se cruzarem numa mesma realidade.

 

Anotar uma ideia chama outra ideia,
uma lembrança encontra outra lembrança;
o pensamento, antes disperso,
começa a tecer uma forma de esperança.

 

Nem todo fio precisa ficar escondido,
nem toda ponta precisa se ajustar.
Há beleza também na trama imperfeita,
na pergunta que ainda vai continuar.

 

A vida não entrega o desenho completo;
nós juntamos fragmentos ao caminhar.
Às vezes, a síntese nasce justamente
quando aceitamos não saber arrematar.

 

Por isso, divido o peso em palavras,
não para fingir que ele deixou de existir,
mas para que a conversa abra espaço,
como um sopro que nos ajude a prosseguir.

 

Se alguma reflexão aliviar outro peito,
se uma ideia fizer alguém reconsiderar,
se um gesto simples servir de abrigo,
a chama já terá valido a pena acender.

 

Que a luz não nos torne cegos,
que a sombra não nos faça desistir;
que entre extremos encontremos equilíbrio,
e que haja espaço para as cores surgir.

 

Que o dia respire junto com a noite,
que a chama se renove sem consumir tudo;
que eu diminua quando o ego crescer,
e que o amor me torne menos duro.

 

No fim, talvez seja isso que procuro:
servir melhor, compreender e cuidar;
honrar a vida enquanto ela me pertence,
e aceitar o que não posso controlar.

 

A fogueira transforma o que recebe,
a terra devolve o que soube acolher.
E eu, entre o peso e a busca de leveza,
aprendo a queimar sem deixar de viver.

 

Que Deus abençoe o caminho,
que a consciência não perca a humildade,
que a nossa presença seja útil aos outros
e que a vida encontre mais humanidade.

Luz para nós.

 

 

 

 

 

FOGUEIRA DA ALMA: ENTRE O PESO E A LEVEZA

O mundo lá fora queima em guerras distantes,
Olhares perdidos em telas brilhantes.
Mas aqui, sob a chuva que cai devagar,
O fogo se acende para tudo reciclar.

No meio das folhas, da madeira e do chão,
O que era cinza vira adubo e oração.
A sujeira do sagrado limpa a alma e o pensar,
Enquanto a chuva fina insiste em tombar.

 

Lavo as mãos na fumaça, sintonizo a razão,
Pedindo ao Criador paz para o coração.
Se o fardo do mundo é pesado de carregar,
Que a chama interior venha nos purificar.

 

Guerreiros virtuais ignoram a dor,
Esquecem o mistério e o sopro do Amor.
Mas no equilíbrio sutil da luz com a penumbra,
A verdade ressoa e a mente vislumbra.

 

Não há coincidência onde tudo se alinha,
A noite se recolhe e a alvorada caminha.
Que a vaidade se apague e o ego diminua,
Pois que Ele cresça e a alma flutua.

 

Entre o fogo e a água, entre a terra e o céu,
A busca da leveza retira todo o véu.
No ardor da fogueira que arde em serenidade,
Encontro meu refúgio e minha verdade.

 

 

”https://www.youtube.com/watch?v=_DlzU9CgZJI

 

 

ROMPENDO A BOLHA

 

 


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