Outubro 19, 2026

A Fagulha no Vazio

Por Rogerio Souza
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Nem todo pensamento encontra a própria palavra,
nem toda ideia chega na hora em que nasceu.
Às vezes, a vida guarda aquilo que faltava
e o sentido aparece quando o instante já passou.

 

Também a planta que eu não sabia nomear
pode surgir no caminho de uma conversa;
e o que parece acaso, ao se aproximar,
faz nascer perguntas na mente dispersa.

 

Talvez seja sintonia, talvez cruzamento de sinais;
nem sempre vemos os fios que unem os acontecimentos.
Há mistérios que nos parecem sobrenaturais,
porque ainda não conhecemos todos os movimentos.

 

Aprendi a olhar o clima de outro jeito:
o calor me cansa, mas faz a planta florescer;
a chuva pode destruir o que foi feito,
mas dá à muda a umidade de que precisa para crescer.

 

Cada estação carrega a sua possibilidade,
cada força traz consigo um risco e uma vantagem.
A experiência não nos entrega a totalidade:
ensina a encontrar caminhos dentro da paisagem.

 

É preciso lutar com a natureza e aprender com ela,
proteger o cultivo sem desprezar o temporal.
Nem toda condição é boa para a mesma semente,
nem todo obstáculo é somente um mal.

 

Assim também somos nós diante da existência:
o que fere um olhar pode nutrir outro ser.
Maturidade talvez seja ampliar a consciência
e perguntar o que ainda podemos aprender.

 

E cuidar de si não é necessariamente vaidade,
nem toda atenção ao rosto nasce do egoísmo.
Há dignidade na limpeza, no zelo e na honestidade
de olhar para si sem cair no abismo.

 

Não se trata de ser belo aos olhos de toda gente,
nem de desistir por medo da própria aparência.
Também comunicamos sem dizer uma palavra:
o cuidado revela atenção, presença e consciência.

 

É preciso cultivar a autocrítica sem crueldade,
reconhecer os detalhes, corrigir o que for possível.
Não para parecer perfeito diante da sociedade,
mas para tornar nossa mensagem mais compreensível.

 

Quantos desejam brilhar, ser ouvidos,
abrir aos seus amados uma porta para o que encontraram?
Sonhamos ver os nossos próximos convencidos,
mas nem todas as sementes germinam quando desejamos.

 

O caminho de alguém pode florescer primeiro;
a conquista alheia não diminui nossa jornada.
Que a bênção do outro não desperte inveja:
que seja esperança compartilhada.

 

Pois não somos o jogador que decide cada lance,
nem donos do destino, do tempo ou do final.
Somos parte de um jogo maior que nosso alcance,
personagens de uma história que não controlamos por completo.

 

E há alívio em não carregar o peso de tudo,
em aceitar que nem tudo depende da nossa mão.
Se existe um sentido além do nosso mundo,
não precisamos comandar cada direção.

 

Quem compreende o peso que o vazio representa
talvez aceite ser pequeno, sem se sentir menor:
uma minhoca sob a terra, uma planta na janela,
um pássaro no céu, uma vida em seu redor.

 

Antes de desejar o topo, a glória e o comando,
lembremos que existir já é vencer o nada.
Há vida humilde, silenciosa, respirando,
e nela a própria realidade se vê multiplicada.

 

Não é preciso ser o centro da narrativa
para participar de algo digno de ser vivido.
Às vezes, uma presença discreta e verdadeira
vale mais que um trono solitário e corroído.

 

Que o Reino seja abrigo em meio à desordem,
um lugar onde a justiça não se venda por poder;
onde a dor do mundo não nos torne indiferentes,
e a esperança não dependa de vencer.

 

Lá fora, os nomes podem trocar de lugar:
a vítima vira culpada, o injusto ganha louvor.
E a riqueza se ergue enquanto alguém sofre,
como se a vitória pudesse apagar a dor.

 

Mas que valor tem ganhar sozinho
num mundo em que tantos precisam padecer?
Que paz pode durar enquanto há guerra no caminho,
se a consciência ainda consegue perceber?

 

Por isso, não exijamos que tudo aconteça
no formato exato que a vontade desenhou.
Não fiquemos tristes apenas porque algo termina;
alegremo-nos também por aquilo que começou.

 

Se um amigo encontra a palavra que esperava,
se alguém amado escuta e começa a compreender,
que a alegria seja nossa, mesmo que a nossa vez não venha:
há grandeza em ver o outro florescer.

 

Somos parte de uma história que nos antecede,
e cujo futuro não podemos antecipar.
Não precisamos ser heróis em cada página
para ajudar uma história maior a continuar.

 

Lembrarei, então, diante do que não entendo:
sou perspectiva, não sou a totalidade.
Meu olhar é uma janela aberta para o mundo,
não o mundo inteiro, em toda a sua profundidade.

 

Posso aprender com a chuva e com o calor,
com o espelho, com o irmão, com o tempo e a espera.
Posso celebrar a vida sem exigir protagonismo,
e cuidar do pequeno que a existência me revela.

 

Que eu não confunda humildade com desistência,
nem confiança com a recusa de pensar.
Que eu faça o que me cabe, atento às consequências,
sem querer, por orgulho, tudo governar.

 

Porque ser parte não é ser insignificante,
e não comandar não é deixar de contribuir.
Há beleza em caminhar sem ser o centro,
há liberdade em aceitar e ainda assim agir.

 

E se o amanhã guardar respostas que não vejo,
se o destino abrir caminhos que não planejei,
seguirei fazendo o melhor com o que conheço,
lembrando: sou perspectiva — não a totalidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

LEMBRAREI QUE SOU PERSPECTIVA E NÃO TOTALIDADE

 

Lembrarei que sou perspectiva e não totalidade,
Uma fagulha viva diante da imensidade.
No teatro do mundo, muitos buscam o holofote,
Querendo ser o jogador, traçando a própria sorte.

 

Mas aprendi no silêncio da terra e da flor,
Que o jogo é a vida, e o jogador é o Criador.
Segurando o peso imenso que queima no vazio,
Deus sustenta a existência contra o nada frio.

 

Diante da escuridão que consome o não-ser,
Qualquer forma de vida é alívio ao nascer:
Seja broto de chuva, seja verme no chão,
Ser parte do Todo é a nossa salvação.

 

O calor que machuca traz força à semente,
A chuva que alaga enraiza o presente.
Muda o clima, muda o tempo, muda o olhar,
Tudo tem sua hora de florescer e somar.

 

Não preciso da ribalta, nem da vã pretensão,
Ser coadjuvante no Reino traz paz ao coração.
Longe das ilusões da ribalta do teatro,
Onde o vilão vira herói num espelho de vidro opaco.

 

Aqui há justiça, propósito e luz,
A certeza serena que a verdade conduz.
Seja como uma planta na janela a brotar,
Sou perspectiva consciente aprendendo a amar.

 

Não sou o centro, nem pretendo ser,
Apenas parte do mistério que me faz viver.

 

 

O MESSIAS VIVO

 

 

”https://www.youtube.com/watch?v=Gn8UDGZm2U8


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