O Equilíbrio entre os Extremos
Há dias em que é preciso parar,
calar a fome,
diminuir o ruído,
e descobrir, no silêncio do corpo,
que talvez precisássemos de menos
do que julgávamos precisar.
A vida moderna nos alimenta demais,
mas nem sempre nos nutre.
Enche a boca,
enche os olhos,
enche a mente,
e ainda assim permanece vazia.
Então vem o jejum,
como uma corda apertada na cintura,
como a faixa que prende o guerreiro,
como disciplina que diz:
Você não precisa de tudo.
E por alguns instantes
o homem percebe
que aquilo que parecia indispensável
era apenas desejo.
Mas cuidado.
Porque até a virtude
pode se transformar em veneno
quando ultrapassa sua medida.
O que para um homem
é silêncio,
para outro é desespero.
O que para um
é iluminação,
para outro pode ser queda.
Há quem encontre paz na fome
e há quem encontre apenas raiva.
Há quem descubra simplicidade
e há quem descubra o abismo.
Porque o corpo não é um inimigo
que precisa ser vencido.
É uma máquina viva,
um templo de ciclos,
uma engrenagem delicada
onde tudo toca tudo.
O sono conversa com a força.
A comida conversa com o trabalho.
O movimento conversa com a mente.
A disciplina conversa com a liberdade.
Até a cera dentro dos ouvidos
segue seu pequeno ciclo,
movida pelo simples ato
de mastigar a vida.
Tudo está conectado.
Por isso,
não transforme o jejum em religião
se ele não for sua religião.
Não transforme a comida em pecado
nem o banquete em culpa.
Há momentos para renunciar
e momentos para celebrar.
Há dias para a fome
e dias para a mesa cheia.
Há momentos para estar sozinho
e momentos para repartir o pão.
Porque alimentar alguém
também é uma forma de amor.
Cozinhar, repartir,
sentar-se à mesa,
rir entre amigos,
erguer um copo,
dividir o alimento:
também são rituais.
Também são sagrados.
O guerreiro precisa de disciplina,
mas precisa de força.
Precisa saber jejuar
quando a vida lhe negar alimento,
mas precisa saber comer
quando chegar a hora de lutar.
Precisa de músculos,
mas também de inteligência.
Precisa de coragem,
mas também de humildade.
Precisa trabalhar,
mas também descansar.
Precisa construir,
mas também contemplar.
E talvez seja essa
a verdadeira disciplina:
saber quando apertar a corda
e saber quando soltá-la.
Porque até a disciplina,
quando se torna absoluta,
deixa de ser disciplina.
O extremo é uma prisão
vestida de virtude.
De um lado,
o homem que quer tudo:
mais comida,
mais prazer,
mais poder,
mais beleza,
mais reconhecimento,
mais alguma coisa
que finalmente preencha
uma carência antiga.
Do outro,
aquele que não quer nada.
Nenhum desejo.
Nenhum sonho.
Nenhuma fome.
Mas também nenhuma chama.
E talvez seja preciso querer.
Querer alguma coisa.
Querer justiça.
Querer beleza.
Querer servir.
Querer construir.
Querer amar.
Querer deixar o mundo
um pouco melhor do que o encontrou.
O querer é uma aposta.
Mas querer demais
pode transformar a vida em carência.
E não querer nada
pode transformá-la em vazio.
Entre os dois extremos
existe o caminho.
Não é o caminho do excesso
nem o caminho da ausência.
É o caminho do equilíbrio.
Como uma ponte sobre o abismo,
como uma escada que abre passagem,
como uma corda que sustenta,
como uma enxada que organiza a terra,
como o fogo que permanece aceso
contra o vazio do nada.
A vida é isso:
pequenos atos
contra a entropia.
Comer.
Dormir.
Trabalhar.
Limpar.
Construir.
Amar.
Rir.
Descansar.
Recomeçar.
Organizar o caos
até que alguma coisa
pareça novamente fazer sentido.
Não existe uma fórmula
que sirva para todos.
O mesmo remédio
pode ser veneno
em outro corpo.
A mesma renúncia
que ilumina um homem
pode destruir outro.
Por isso,
não idolatre os extremos.
Nem a fome.
Nem o excesso.
Nem a força sem humildade.
Nem a humildade sem força.
Nem o desejo desenfreado.
Nem a ausência completa de desejo.
A sabedoria talvez esteja
em saber mudar.
Avançar quando é hora de avançar.
Parar quando é hora de parar.
Apertar a corda.
Soltar a corda.
Sentar-se à mesa.
Levantar-se para trabalhar.
Jejuar.
E depois comer.
Porque viver
não é escolher um dos lados.
É aprender
a caminhar entre eles.
E permanecer inteiro.


# O Pêndulo da Existência
No banquete fácil da vida moderna,
onde a ansiedade é velha companheira
e o tédio se esconde atrás do excesso,
o homem busca no silêncio o seu remédio.
Mas o vazio é um espelho de duas faces:
para uns, a quietude mística do zen;
para outros, o despertar de um demônio
que ruge de fome na escuridão do caos.
Olhe para dentro: tudo em ti é costura.
Até a cera do ouvido silencia e sofre
se a mandíbula esquece o movimento da vida.
Parar por completo é estagnar o próprio fluxo,
pois o corpo é teia, ciclo e templo.
Erga-se forte, com músculos e substância.
Não queira ser apenas o Buda pálido sob a árvore
se o mundo necessita do teu braço firme
para servir, lutar e erguer o reino.
A comida é alquimia, o banquete é sagrado,
desde que a energia transborde no amanhã.
Carrega contigo as ferramentas da ordem:
o cinto que sustenta a dignidade do homem,
a corda da disciplina, a vassoura contra a entropia,
e as pontes que abrem novos caminhos
no terreno indomável do universo.
A grande aposta, no fim, repousa no querer.
Querer demais é perder-se em vaidades;
não querer nada é tornar-se um fantasma
que vaga pelo limbo, apático e frio.
Deus não deseja a companhia de um zumbi.
Queira a justiça, a glória ou o alívio,
mas queira algo que te mantenha vivo.
Nem o nada absoluto,
nem o tudo devorador.
Que o teu espírito encontre,
no centro de todas as coisas,
a homeostase.
”https://www.youtube.com/watch?v=HsgHgFVnfoM
Sabedoria divina! Lpn
Luz p’ra nós!