A Velha Amiga Loucura
Eu conheço a loucura.
Ela já sentou ao meu lado
em noites que pareciam não ter fim.
Não bateu à porta.
Nunca precisou.
Ela simplesmente entrou,
puxou uma cadeira
e ficou.
Às vezes chega vestida de angústia.
Às vezes de solidão.
Às vezes traz consigo
uma tristeza tão profunda
que parece não ter nome.
E eu já tentei expulsá-la.
Já pedi que fosse embora.
Já procurei respostas,
procurei certezas,
procurei um caminho seguro
para nunca mais precisar
olhar para dentro de mim.
Mas ela sempre volta.
Minha velha amiga.
Talvez porque conheça
uma parte de mim
que os outros nunca conheceram.
Ela sabe o peso
das perguntas sem resposta.
Sabe como é olhar para o futuro
e perceber que não existe mapa.
Sabe como é querer compreender
os mistérios de Deus
e descobrir que existem portas
que não foram feitas
para serem abertas.
Ela ri quando eu digo:
“Eu preciso saber.”
E responde:
“Não precisa.”
Eu pergunto:
“Quando será o fim?”
Ela pergunta:
“E o que você está fazendo agora?”
Eu pergunto:
“Quanto tempo ainda temos?”
Ela responde:
“Você já está vivendo.”
Então eu compreendo
que talvez minha maior loucura
tenha sido acreditar
que eu precisava entender tudo.
Querer conhecer o amanhã.
Querer enxergar o destino.
Querer descobrir
o que nem os anjos sabem.
Como se possuir respostas
fosse a mesma coisa
que possuir sabedoria.
Mas a velha amiga
apenas sorri.
Porque ela sabe:
conhecimento demais
também pode ser uma prisão.
Há coisas que pertencem
à intimidade de Deus.
E talvez a humildade
seja justamente aceitar
que algumas perguntas
ficarão sem resposta.
Então ela me acompanha
até o lugar onde termina
a minha necessidade de saber.
E ali começa a fé.
Não aquela fé que promete
uma vida sem sofrimento.
Mas a fé que permanece
quando o sofrimento chega.
Porque ele chega.
A dor chega.
A solidão chega.
A noite chega.
E às vezes até Deus
parece distante.
Foi assim na cruz.
Até Cristo perguntou
por que havia sido abandonado.
E talvez seja por isso
que eu não deva fugir
da minha própria escuridão.
Talvez eu não precise pedir:
“Senhor, tira todo sofrimento de mim.”
Talvez eu deva pedir:
“Senhor, ensina-me
a suportá-lo.”
A velha amiga escuta.
Ela não responde.
Nunca responde.
Apenas permanece.
Porque ela sabe
que algumas coisas
não precisam de explicação.
Precisam ser atravessadas.
Então caminhamos.
Eu e ela.
Pela estrada estreita.
Enquanto o mundo grita:
“Seja grande!”
Ela sussurra:
“Seja humilde.”
Enquanto o mundo diz:
“Conquiste.”
Ela pergunta:
“Para quê?”
Enquanto todos correm
atrás de dinheiro,
poder, sucesso e segurança,
ela me lembra:
“Você vai levar isso
para onde?”
E eu olho para minhas mãos.
Vazias.
Finalmente vazias.
E pela primeira vez
isso não me assusta.
Porque talvez seja preciso
chegar de mãos vazias
para conseguir recebê-las
cheias de alguma coisa maior.
Talvez o Reino
não esteja no fim do mundo.
Talvez esteja aqui.
No homem que serve.
Naquele que reparte.
Naquele que abaixa a cabeça.
Naquele que aceita ser pequeno
quando todos querem ser reis.
A velha amiga sorri novamente.
Ela sabe que o homem
quer ser grande.
Depois quer ser rei.
Depois quer ser Deus.
Mas Deus escolheu
ser homem.
E talvez essa seja
a maior ironia de todas:
quanto mais queremos subir
até o céu,
mais distante ficamos dele.
Quanto mais aceitamos descer,
mais perto chegamos.
Então eu sigo.
Sem saber o dia.
Sem saber a hora.
Sem saber como tudo terminará.
E a velha amiga
continua comigo.
A loucura.
A angústia.
A solidão.
A tristeza.
Não como inimigas,
mas como testemunhas
de que eu ainda estou caminhando.
Talvez um dia
eu finalmente entenda.
Talvez nunca entenda.
Não importa.
Porque chegará o momento
em que todas as perguntas
terão perdido sua importância.
O momento em que não haverá
mais futuro para prever,
nem passado para corrigir,
nem mundo para conquistar.
Apenas uma última estrada.
E talvez, naquele instante,
quando todas as certezas
já tiverem desaparecido,
eu olhe para a velha amiga
sentada ao meu lado
e finalmente compreenda:
ela nunca veio
para me destruir.
Veio para me ensinar
a caminhar sem certezas.
Veio para me ensinar
que nem todo silêncio
é abandono.
Que nem toda dor
é castigo.
Que nem toda loucura
é perda de sentido.
E que às vezes é preciso perder a razão
para encontrar a fé.
Então ela se levantará.
Talvez pela última vez.
E antes de partir,
dirá apenas:
“Agora você pode continuar sozinho.”
E eu continuarei.
Sem medo do amanhã.
Sem necessidade de saber.
Com a cabeça baixa.
As mãos abertas.
E a fé guardada no peito.
Porque o fim talvez não seja
quando o mundo acabar.
Talvez seja quando
finalmente terminar em nós
a necessidade de controlar
o que nunca esteve
em nossas mãos.
E então,
quando tudo estiver consumado,
eu não perguntarei mais:
“Por quê?”
Apenas direi:
“Está consumado.”

”https://www.youtube.com/watch?v=vW8hNaCUMH0
É uma velha amiga.. lpn