Outubro 5, 2026

Liberdade de Escolha, Prisão do Sentir

Por Rogerio Souza
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A Dança do Contraste

 

Somos livres para escolher
o caminho diante dos olhos,
mas há uma prisão mais profunda
naquilo que desejamos.

 

Posso escolher o pepino,
recusar o gosto do tomate,
mudar o prato sobre a mesa,
mas não ordeno ao coração
que deseje o que não deseja.

 

Existe liberdade na escolha
e prisão no sentimento.

Somos capazes de decidir os passos,
mas não somos senhores absolutos
daquilo que nos faz sentir.

 

Talvez a vida seja exatamente isso:
uma dança entre extremos.

O prazer absoluto
traz consigo a possibilidade da agonia.
A luz encontra a sombra,
o alívio encontra o sofrimento,
o nascimento encontra a dor.

 

No início da vida,
um prazer pode anteceder a passagem.
Depois, o corpo atravessa o mundo
e descobre o choro,
o frio,
a falta,
o medo,
a fome,
o desejo.

 

E assim começa a experiência.

Há crianças que chegam ao mundo
ainda protegidas pelo silêncio,
repousadas no líquido,
sem conhecer a ruptura.

 

Até que a bolsa se rompe,
o ambiente muda,
e aquilo que era abrigo
torna-se movimento.

 

O nascimento também é entropia:
a passagem do equilíbrio
para a turbulência,
do protegido
para o desconhecido.

 

Talvez a morte também seja uma passagem.

Pode ser agonia.
Pode ser alívio.
Pode ser apenas uma mudança de sintonia,
uma consciência deixando uma frequência
para encontrar outra.

 

Há um instante profundo,
um momento zero,
onde os extremos parecem tocar-se.

A máxima entropia
encontra sua contraparte na simetria.

 

A noite guarda o dia.
O inverno prepara o verão.
O negativo responde ao positivo.
O Yin encontra o Yang.

 

E talvez nenhum extremo exista sozinho.

Pois a luz sem contraste
não ilumina:
queima.

A luz absoluta cega.

 

É preciso haver sombra
para que o brilho seja percebido,
é preciso haver ausência
para que a presença seja sentida,
é preciso haver carência
para que o afeto tenha significado.

 

A consciência superior
entra no mundo através do contraste.

 

Ela veste o corpo,
experimenta sabores,
conhece desejos,
descobre a carência,
sofre,
ri,
ama,
tem medo,
surpreende-se.

 

Porque talvez Deus não necessite
apenas de uma luz perfeita.

Talvez necessite da experiência
de suas próprias centelhas.

 

O corpo animal segue ao lado da consciência,
não como inimigo,
mas como instrumento da jornada.

 

E enquanto crescemos,
tentamos abandonar a criança
que fomos um dia.

 

Buscamos sensações maiores,
distâncias maiores,
respostas maiores.

 

Queremos deixar de ser crianças
antes mesmo de compreender
o que havia de precioso nelas:

a surpresa.

 

A simplicidade.

A capacidade de admirar
uma coisa pequena
como se fosse infinita.

 

Talvez amadurecer
não seja abandonar a infância,
mas retornar a ela
sem perder tudo aquilo que aprendemos.

 

Talvez a verdadeira consciência
seja conseguir atravessar a sombra
sem esquecer a luz.

 

E, diante do mistério,
até aquele que duvida
poderia fazer uma prece:

Deus,
que o Senhor exista.

 

Porque talvez,
quando o contraste chegar ao extremo,
quando a dor parecer grande demais,
quando a sintonia se desfizer,
a consciência ainda procure
uma frequência superior.

 

E quando tudo terminar,
que reste aquilo que o mundo
quase sempre nos faz esquecer:

leveza,

simplicidade,

surpresa,

e a coragem de construir,
entre a luz e a sombra,
um Reino justo e harmonioso,

onde a consciência possa finalmente
repousar.

 

 

 

 

 

A DANÇA ENTRE LUZ E SOMBRA

Sou livre para escolher o caminho a trilhar,
Mas preso ao sentir que não posso mudar.
No peito que vibra em desejo e afeição,
A escolha é do passo, o sentir é prisão.

O prazer mais sublime e a dor mais profana
São duas metades da essência humana.
Almas gêmeas tecidas num único nó,
No berço do parto, na foz do pó.

No instante do parto, o rompimento do líquido,
A ordem se dobra ao Caos estrépito.
A entropia desenha arestas no rosto,
Nascer é abalo, mistério e desgosto.

Contudo, a consciência que vem do Vazio,
Do Tudo que era o Nada em abrigo frio,
Procura a matéria, o sabor, o calor,
A farsa do tempo, o contraste e o amor.

A luz radiante que queima e desgasta
Precisa da sombra que acolhe e afasta.
Repousa o eterno no manto da noite,
Acalma o espírito do fogo do açoite.

Que o olhar do adulto, no ciclo sereno,
Reencontre a leveza do riso pequeno.
Como o pai que se encanta na graça do filho,
A alma descobre o seu próprio brilho.

E no Momento Zero, na grande harmonia,
A luz e a sombra compõem a poesia.
Um Reino de paz, de justiça e união,
Onde o nada e o tudo se dão a mão.

 

 

A Arte do Mestre Carpinteiro

 

 

 

”https://www.youtube.com/watch?v=hv85y90OIUw


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