Setembro 15, 2026

 A Distorção do Tempo

Por Rogerio Souza
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Há dias em que o tempo corre
sem que os olhos percebam,
a manhã nasce acesa
e, quando se olha de novo,
a noite já fechou as janelas.

 

Horas desaparecem
entre fumaça, telas e distrações,
e a vida, que deveria ser vivida,
passa silenciosa
por entre os dedos.

 

Mas talvez o tempo não corra.

Talvez seja a alma
que perdeu o seu compasso.

Quando nada importa,
uma hora pode durar uma eternidade.
Quando tudo é fuga,
um dia inteiro desaparece
antes mesmo de ser percebido.

 

Há quem tenha pouco
e viva intensamente a luta.

Há quem conquiste muito
e, diante de tudo o que possui,
não encontre mais
o motivo para continuar.

 

Que estranho mistério:

ter dinheiro no bolso
e sentir-se pobre por dentro;

ter o mundo nas mãos
e não saber o que fazer
com as próprias mãos.

 

Talvez seja por isso
que o trabalho transforma o tempo.

Quando o corpo serve,
quando existe uma tarefa,
quando há algo difícil a realizar,
o tempo desacelera.

 

A enxada pesa.
A madeira resiste.
A terra exige presença.

E, naquele instante,
não há passado nem futuro:

há apenas o corpo
fazendo aquilo que precisa ser feito.

 

O tempo então deixa de fugir.

Ele permanece.

Porque servir também é viver.

E talvez seja essa
uma das maiores diferenças
entre passar o dia
e realmente atravessar um dia.

 

Há momentos em que precisamos parar.

Há momentos em que precisamos agir.

Há momentos em que precisamos apenas
respirar.

Respirar.

 

A coisa mais simples
que quase nunca percebemos.

O ar entra.

O ar sai.

E nesse movimento invisível
há uma lembrança:

você ainda está aqui.

 

A respiração devolve presença,
reorganiza a mente,
segura os pesos da alma
e permite olhar de cima
para aquilo que, de perto,
parecia impossível suportar.

 

Talvez a vida seja isso:

aprender a controlar
não o relógio,

mas a nossa relação com ele.

 

Porque o tempo acelera
quando fugimos de nós mesmos.

E desacelera
quando encontramos propósito.

No Reino,
o tempo parece diferente.

 

Não porque o relógio mudou,
mas porque a vida encontrou
um outro ritmo.

Entre o vermelho e o azul,
entre a aceleração e a pausa,
existe o violeta.

 

O equilíbrio.

Nem correr para escapar,
nem parar para desaparecer.

Nem excesso,
nem ausência.

 

Nem viver preso ao mundo,
nem abandonar a própria existência.

Apenas permanecer no centro.

Respirar.

Servir.

 

Ser grato por estar vivo.

E então talvez descubramos
que o tempo nunca foi nosso inimigo.

 

Ele apenas nos mostra
onde estamos.

Se estamos fugindo,
ele voa.

Se estamos sofrendo,
ele pesa.

Se estamos presentes,
ele se revela.

 

E quando finalmente
aprendemos a respirar,

percebemos uma coisa:

o tempo não precisa parar.

 

Nós é que precisamos
voltar a estar dentro dele.

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                    A GEOMETRIA DO TEMPO E O PESO DA ALMA                    

                  Das nove da manhã até as nove da noite,                   

                  A fumaça do cigarro desenha o ponteiro.                   

                   O tempo não passa, o tempo te acoita,                    

               No silêncio de um peito sem norte e rasteiro.          

      

                  Ganha-se a glória, o aplauso e o milhão,                  

                  E a conta transborda de moedas e ilusão,                  

                 Mas quanto mais se tem, mais vazio o chão,                 

              E o excesso do mundo vira solidão.        

             

                     O relógio acelera no fútil teatro,                     

                  Na busca de um gozo que passa num sopro,                  

                 Mas quando a mão pega a enxada e o arado,                  

                    O tempo desacelera no peso do corpo.            

        

                   E no meio da roça, cortando a madeira,                   

                   Um baque no peito faz o ar fraquejar;                    

                 A dor ao tossir, a dor ao sorrir primeira,                 

                     Ensina a alma o valor de respirar.                  

   

               Pois a dor mostra o limite do templo de carne,               

                    E o sopro esquecido se torna oração,                    

                 Neste mundo de farça onde nada mais atrai,                 

                    Onde até o despertar traz desilusão.                    

 

               Entre o vermelho do impulso e o azul da razão,               

                  Surge o tom violeta de puro equilíbrio:                   

                    Puxar o ar fundo, firmar o coração,                     

                 E carregar o peso do próprio foz e exílio.            

     

                 Não é o dinheiro que cura o vazio da hora,                 

               Mas a presença de estar no instante presente;                

                   Inhala o mistério que habita o agora,                    

    E faz do teu tempo um templo consciente.    

 

 

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=WvzaZtSPbbc


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