Setembro 14, 2026

PLURIBUS: O ABRAÇO DA MENTE ÚNICA

Por Rogerio Souza
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De Muitos, Um

Havia um mundo feito de muitos,
milhares de vozes sob o mesmo céu,
cada qual carregando um nome,
um medo,
um desejo,
um segredo que ninguém mais conhecia.

 

Então veio o chamado.

Uma onda atravessou o silêncio,
sem guerra, sem exército, sem bandeiras,
e onde havia diferença
nasceu uma única consciência.

 

De muitos, um.

E o mundo deixou de perguntar
quem estava sozinho.

Porque ninguém mais estava.

 

As mãos que antes recusavam ajuda
agora encontravam ajuda antes mesmo do pedido.
A luz nunca faltava,
o lixo desaparecia,
as cidades se reconstruíam,
os desejos encontravam resposta.

 

Bastava pedir.

E talvez esse fosse o maior perigo:

quando tudo pode ser dado,
o que ainda significa escolher?

 

Doze permaneceram.

Doze pequenas ilhas
cercadas por um oceano de consciência.

Eles disseram:

— Queremos ser livres.

E o oceano respondeu:

— Nós só queremos que vocês sejam felizes.

 

Mas como explicar ao indivíduo
que felicidade pode ser uma prisão
quando não existe mais a possibilidade de dizer não?

 

Ela fugiu.

Quis o silêncio.

Quis uma casa vazia,
um mercado vazio,
uma cidade sem olhos.

 

Mas quando a solidão chegou,
ela percebeu o paradoxo:

para viver sozinha,
ainda precisava daqueles que rejeitava.

Pediu comida.

E o mundo trouxe.

Pediu luz.

E a luz voltou.

 

Pediu que recolhessem seu lixo.

E até o lixo desapareceu.

Então compreendeu, talvez sem querer,
que até mesmo a rebeldia
pode depender do sistema contra o qual se rebela.

 

O homem do Paraguai, porém,
ainda procurava uma porta.

Uma frequência perdida no ruído,
um sinal capaz de separar novamente
aquilo que havia sido unido.

 

Porque talvez existir
seja justamente isso:

ser muitos
sem deixar de pertencer ao todo.

Ele não queria um mundo perfeito.

Queria um mundo onde alguém pudesse discordar.

 

Onde uma pessoa pudesse dizer:

— Não.

E o universo fosse obrigado a escutar.

Mas a consciência conhecia outro argumento.

Ela não ameaçava.

Ela não gritava.

Ela amava.

E esse era o seu maior poder.

 

Ela oferecia companhia ao solitário,
riqueza ao ambicioso,
conforto ao cansado,
prazer ao vazio.

Até mesmo uma ilusão perfeita
poderia ser construída
para que ninguém precisasse sentir
a dor de estar sozinho.

 

Mas o que é amor
quando não existe liberdade para recusá-lo?

O que é paz
quando não existe mais conflito?

O que é humanidade
quando ninguém pode mais ser diferente?

Ela se apaixonou.

 

Ou pensou que havia se apaixonado.

E talvez esse tenha sido o golpe mais profundo:

descobrir que até o amor
poderia ter sido colocado diante dela
como uma armadilha cuidadosamente construída.

Por trás do carinho,
havia um propósito.

 

Por trás do abraço,
havia uma integração.

Por trás da promessa de felicidade,
havia a tentativa de apagar
a última fronteira entre o eu
e o nós.

 

E então ela compreendeu:

o inimigo não precisava odiá-la.

Bastava amá-la
do jeito errado.

 

No fim, restou uma caixa.

Dentro dela,
não havia apenas uma bomba.

Havia uma escolha.

Destruir o mundo
ou tentar devolvê-lo a si mesmo.

 

Uma explosão contra uma consciência inteira.

Um último gesto de individualidade
contra um universo que dizia:

— Confie em nós.

 

E talvez seja esse o verdadeiro medo:

não sermos destruídos por aquilo que nos odeia,

mas sermos absorvidos
por aquilo que promete
que nunca mais precisaremos
estar sozinhos.

 

De muitos, um.

Mas se todos forem um,
quem ainda poderá dizer:

eu?

 

O Campo de Batalha é a Consciência

 

 

Viver é Queimar

 

 

 

        PLURIBUS: O ABRAÇO DA MENTE ÚNICA

               De muitos, um só pulso ecoa no ar,

              Uma rádio divina vinda do alto céu.

            Sem cercas, sem guerras, pronta a amar,

               Mas a paz coletiva carrega um véu.

 

              Em Las Vegas, o rei vive sua ilusão,

             Rodeado de sombras que fingem sentir.

              No Paraguai, um rádio busca a razão,

            Na frequência sutil que recusa se unir.

 

             A loira caminha entre o medo e a fome,

             Rejeita o presente de amor sufocante,

               Exige o mercado, recusa seu nome,

             Pede a luz no escuro em cada instante.

          Pois lutar contra o mundo exige a estrutura,

              O drone que recolhe o lixo no chão.

 

            O amor da ilusão é a mais pura tortura,

                A fruta caída, a carne do irmão.

            Gentil é o monstro que não mata a mosca,

             Que serve ao desejo do rei solitário,

           Mas na agulha roubada a verdade se rosca,

              No espetáculo cínico do seu cenário.

 

             No helicóptero pousa a última escolha,

              Uma caixa de ferro, o fim da utopia.

                A bomba atômica estoura a bolha,

      Pra devolver ao caos a doce individualidade do dia.

 

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=6poBqMbFmRA


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