Setembro 22, 2026

Quando o Eu Se Divide

Por Rogerio Souza
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A Multidão Invisível Que Usa Meu Nome

Quantos vivem dentro de mim
quando digo simplesmente:
eu?

 

Um quer partir,
outro quer ficar.
Um promete mudança,
outro prefere o velho caminho.
Um busca o amor,
outro levanta muros.
Um pede silêncio,
outro alimenta a guerra.

 

E todos dizem a mesma palavra:

eu.

Talvez esse seja o maior engano:
confundir cada voz que surge
com aquele que verdadeiramente somos.

 

A raiva chega
e eu digo: “sou eu”.

O medo aparece
e eu digo: “sou eu”.

 

A vaidade levanta a cabeça,
o desejo toma o corpo,
a carência pede migalhas,
e todos recebem o mesmo trono.

 

Sem perceber
entrego minha vida
ao primeiro impulso
que conseguir falar mais alto.

 


Um eu promete acordar cedo.
Outro ama a cama.

Um jura nunca mais voltar.
Outro sente saudade
quando a noite pesa.

 

Um promete dignidade.
Outro implora por atenção.

Um decide abandonar o vício.
Outro pede apenas
“mais uma vez”.

 

E quando tudo termina,
olho para os destroços
e pergunto:

“Por que eu sou assim?”

 

Talvez porque
eu nunca tenha sido apenas um.


Há uma multidão
usando meu rosto.

Pequenas vontades,
pequenos medos,
pequenas certezas
passageiras,

entrando e saindo
como atores de um palco
que chamamos de personalidade.

 

Cada um acredita ser o protagonista.

Cada um fala
com a certeza de quem ficará para sempre.

Mas nenhum permanece.

 

E ainda assim
eu os chamo de mim.


Talvez eu não esteja acordado
apenas porque meus olhos estão abertos.

Talvez exista um sono
mais profundo que o corpo.

Um sono em que caminho
sem estar presente.

 

Falo sem estar ali.

Reajo sem escolher.

Amo sem perceber.

Ofendo sem compreender.

Prometo sem saber
quem será aquele
que terá de cumprir.

 

A máquina continua funcionando.

E eu confundo movimento
com presença.


Então surge uma pergunta
que não aceita respostas fáceis:

Quem está falando agora?

 

É o medo?

É a raiva?

É a vaidade?

É a carência?

É o orgulho?

É o desejo?

Quem tomou o volante
desta vez?

 

E existe em mim
algo capaz de olhar
para tudo isso
sem se tornar aquilo que olha?

 


Talvez o verdadeiro
não seja outra voz.

Talvez não seja
um personagem mais bonito,
mais espiritual,
mais sábio,
mais perfeito.

 

Talvez o verdadeiro
comece justamente
quando nenhuma dessas vozes
consegue mais se chamar
de dono.

 

Quando a raiva aparece
e é apenas observada.

Quando o medo chega
e não recebe o trono.

Quando o desejo grita
e encontra silêncio.

Quando a vaidade exige
e alguma coisa em nós
simplesmente vê.

 


Não é preciso destruir
todas as vozes.

É preciso perceber
que elas são vozes.

Não é preciso deixar
de sentir.

 

É preciso deixar
de obedecer cegamente
a tudo aquilo que sentimos.

Porque o problema
talvez nunca tenha sido
a existência dos impulsos.

 

O problema foi coroá-los.

Fazer de cada desejo
um rei.

De cada medo,
um profeta.

De cada pensamento,
uma verdade.

De cada reação,
uma identidade.

 


E quando a multidão se cala
por apenas alguns segundos,

surge um espaço.

Um pequeno espaço
entre o impulso
e a resposta.

 

Entre a emoção
e o ato.

Entre aquilo que acontece
e aquilo que faço com o que aconteceu.

Talvez seja pequeno.

Talvez dure apenas um instante.

Mas naquele instante
eu não fui arrastado.

Eu vi.

 

E talvez ver
seja o primeiro gesto
de liberdade.


Então descubro
uma verdade desconfortável:

não preciso acreditar
em todo pensamento
que passa por mim.

 

Não preciso obedecer
a todo desejo.

Não preciso defender
toda emoção.

Não preciso dizer “sou eu”
para tudo aquilo
que apenas me atravessa.

Porque uma nuvem passa
sem ser o céu.

Uma onda passa
sem ser o mar.

 

E talvez um pensamento
possa passar por mim
sem ser aquilo que sou.


Quantas escolhas foram minhas?

 

Quantas promessas
foram feitas por alguém
que já desapareceu?

Quantos amores nasceram
da identificação?

 

Quantas guerras comecei
apenas porque uma pequena voz
quis vencer?

 

Quantas vezes destruí
aquilo que amava
e depois disse:

“Eu não sei por quê.”

 

Talvez eu saiba agora.

Talvez apenas não tenha
estado presente
para perceber.

 


Não quero mais
um personagem para adorar.

Não quero fabricar
um “eu desperto”
para substituir
os antigos.

 

Não quero vestir
uma nova máscara
e chamá-la de consciência.

 

Quero apenas ver.

Ver quando o medo chegar.

Ver quando o orgulho falar.

Ver quando a raiva pedir passagem.

 

Ver quando a carência
quiser assumir meu nome.

Ver a multidão.

E permanecer.

 


Porque talvez liberdade
não seja fazer tudo o que quero.

Talvez seja descobrir
quem é esse “eu”
que quer.

 

Talvez vontade verdadeira
não seja o grito mais alto.

Talvez seja aquilo
que permanece
quando os gritos cessam.

 


E então, diante de mim,
surge novamente a multidão.

Um novo eu chega.

Ele quer ser obedecido.

Quer falar em meu nome.

Quer tomar o trono.

Mas desta vez
eu paro.

Respiro.

Observo.

 

E não digo imediatamente:

“Sou eu.”

Apenas vejo.

E naquele pequeno intervalo
entre a voz
e a obediência,

talvez pela primeira vez
eu esteja realmente aqui.

 

A Alma que Rompe a Ilusão

 

O Despertar dos Quatro Caminhos

 

 

       A MULTIDÃO INVISÍVEL

              Eu sou o grito que exige o volante,

             Eu sou a voz que promete e não cumpre.

                Um eu deseja o cume do instante,

               Outro prefere o sono que o ilude.

               Crendo ser um, me perco na névoa,

            Habitado por sombras que usam meu nome.

              Cada impulso reina enquanto me leva,

             E a luz da presença se apaga e consome.

 

                  Digo ‘sou eu’ a cada ferida,

               Coroando reis que duram segundos.

             Uma casa em guerra, uma vida dividida,

                  Vivida por espectros sem rumo no mundo.

 

                Mas no choque seco da percepção,

             Surge um olhar que não julga nem cede.

                 A farsa vacila na observação,

                   E a máscara antiga desmorona e retrocede.

 

               Não ser o medo, a raiva ou a dor,

               Sentir o corpo no meio do tráfego.

              Sem novos teatros, sem falso clamor,

                Apenas o silêncio do Observador desperto.

 

           Na fresta do vazio, o feitiço se encerra:

             Quem em mim fala e quer neste momento?

            E no centro sereno da alma que observa,

              Cessa o barulho do falso pensamento.

 

A Dor Também Ensina

 

 

 

 

https://youtu.be/q3fhBlX_4F0


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