Aquele que Já Está no Futuro
Não existe estrada imóvel.
Mesmo quando paramos,
o tempo continua caminhando
debaixo dos nossos pés.
Cada pensamento abre uma porta,
cada desejo desenha uma paisagem,
cada medo constrói, em silêncio,
um lugar onde ainda não estivemos.
E talvez seja isso
que chamamos de futuro:
não um lugar distante,
mas aquilo que começa
a existir dentro de nós
antes de ganhar forma no mundo.
Há futuros que nunca chegam.
Há outros que chegam
com a estranha aparência
de algo que já conhecíamos.
Como se, em algum instante,
tivéssemos atravessado uma fronteira
sem perceber.
Também há o passado.
Ele não morreu completamente.
Às vezes dorme
atrás de uma lembrança,
numa palavra esquecida,
numa dor antiga
que ainda guarda uma porta.
E quando retornamos,
não voltamos exatamente ao que fomos.
Voltamos diferentes
para encontrar
aquele que um dia fomos.
Talvez viajar no tempo
seja justamente isso:
olhar novamente
para aquilo que nos criou
e descobrir que ainda existe
algo esperando ser compreendido.
Entre passado e futuro
há o instante.
Pequeno.
Quase invisível.
Mas é nele que tudo acontece.
É nele que escolhemos
uma direção entre milhares,
que colocamos uma mesa
no lugar certo,
abrimos um caminho,
erguemos uma ponte
sobre a água
e transformamos pouco a pouco
o caos em morada.
A entropia nunca desaparece.
A desordem sempre retorna.
Mas há uma inteligência
que insiste em organizar.
Uma mão que separa,
empilha,
limpa,
constrói,
abre passagens
onde antes havia apenas mato.
Talvez viver seja isso:
não vencer definitivamente o caos,
mas criar, dentro dele,
pequenas ilhas de simetria.
E então existe aquela presença.
Aquela que não chega.
Porque já estava lá.
Quando olhamos para o futuro,
Ele está lá.
Quando retornamos ao passado,
Ele está lá.
Quando atravessamos
um momento de silêncio,
uma epifania,
uma lembrança,
uma escolha,
uma queda
ou uma descoberta,
Ele está lá.
Não como alguém
que aparece no fim da estrada,
mas como aquele
que conhece a estrada
antes mesmo de caminharmos.
Talvez seja por isso
que certos futuros
parecem familiares.
Talvez porque,
em algum nível que não compreendemos,
não estejamos caminhando sozinhos
em direção a eles.
O futuro pode ser imenso.
Podemos imaginar mil mundos,
mil possibilidades,
mil versões de nós mesmos.
Podemos alcançar aquilo
que um dia parecia impossível
e, depois de alcançá-lo,
perguntar:
— E agora?
Porque até a realização
pode se transformar em estagnação.
Até o sonho realizado
pode virar uma sala
sem portas.
E talvez a verdadeira viagem
não seja chegar.
Talvez seja continuar.
Continuar criando.
Continuar escolhendo.
Continuar abrindo caminhos.
Continuar transformando
a experiência em consciência.
Há pessoas que viajam
para longe do próprio corpo.
Outras viajam
para dentro da própria mente.
Algumas precisam do silêncio
para ouvir o que existe
quando o mundo se cala.
E há pensamentos
que atravessam horas
como quem atravessa oceanos.
Uma conversa pode durar uma noite.
Uma lembrança pode durar uma vida.
Uma ideia pode atravessar séculos.
O tempo não é apenas aquilo
que o relógio mede.
É também aquilo
que a consciência percorre.
Um dia,
tudo aquilo que chamamos presente
será memória.
O que hoje parece impossível
poderá ser apenas uma lembrança.
As decisões de agora
estarão escondidas
nas consequências de amanhã.
E talvez alguém,
em algum futuro que ainda não existe,
olhe para trás
e perceba:
— Eu estava lá.
Eu atravessei aquele instante.
Eu fiz parte daquela história.
Eu caminhei naquela direção.
Porque estamos todos viajando.
Os que possuem muito.
Os que possuem pouco.
Os que vivem em ordem.
Os que lutam contra o caos.
Os que constroem pontes.
Os que ainda procuram
um caminho para atravessar.
Todos carregamos
a mesma passagem invisível.
O tempo nos leva
sem pedir licença.
E ninguém pode permanecer
exatamente onde está.
Por isso,
se algum dia você enxergar
um futuro possível,
não tenha pressa
de chamá-lo de destino.
Talvez seja apenas
uma janela aberta
pela imaginação.
Talvez seja uma possibilidade.
Talvez seja um chamado.
Talvez seja somente
o primeiro desenho
de uma realidade
que ainda precisa ser construída.
Mas caminhe.
Porque o futuro não espera.
E, quando finalmente chegarmos lá,
talvez descubramos
que Aquele que procurávamos
não estava no fim da estrada.
Estava conosco
desde o primeiro passo.
E continuará conosco
quando o futuro
também se tornar passado.
O TECIDO DO TEMPO E A ESTRELA DA ORDEM
I
Não é feitiço e nem poder distante,
A vida inteira é viagem no tempo,
Caminho que se move a todo instante,
Entre a memória viva e o pensamento.
II
Nós caminhamos para o que se imagina,
Ou no cenário que outrem desenhou;
O tempo passa, a mente se inclina
Ao futuro que a alma idealizou.
III
Lutamos contra a força da entropia,
Buscando a simetria ao nosso redor:
Na mesa posta, na prateleira fria,
No caminho limpo que se faz melhor.
IV
Erguer mini pontes sobre a corrente,
E abrir as passagens da compaixão,
Pois no meio do caos, o invisível presente
Harmoniza o espaço e o coração.
V
E em todo futuro, em toda visão,
A mesma Presença atemporal estará;
O Mestre conecta a eternidade e o chão,
Na linha do tempo onde a alma repousará.
VI
Não temos nada na nuvem ou no ar,
A não ser a fé e a ligação de alma;
No mar da consciência a se expandir e clarear,
Encontramos na jornada a simetria e a calma.
”https://www.youtube.com/watch?v=X577ViHktH4
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