Quando o Amor Esfria
Disseram que o amor se perderia,
que muitos deixariam de amar,
e pensamos logo na guerra,
no sangue,
na violência a se espalhar.
Mas talvez o amor não morra apenas no conflito.
Talvez ele morra devagar,
quando a vida perde o sentido,
quando já não há vontade de caminhar.
Esfria quando o homem se acostuma
com aquilo que deveria assustar.
Quando vê a dor na tela
e simplesmente muda de canal.
Esfria no excesso de ruído,
na multidão de imagens,
nas horas gastas tentando esquecer
o vazio que ninguém consegue preencher.
E o tédio chega em silêncio.
Não destrói portas,
não anuncia sua chegada.
Apenas retira, pouco a pouco,
o brilho da jornada.
Então repetimos os mesmos filmes,
os mesmos jogos,
as mesmas histórias,
procurando no passado
uma chama que o presente não soube criar.
Porque quando falta substância,
qualquer distração parece abrigo.
E quando falta propósito,
passar o tempo parece destino.
Mas o tempo não foi feito
para ser simplesmente passado.
Foi feito para ser vivido.
Enquanto o mundo corre
tentando escapar da própria angústia,
há quem construa muros,
acumule riquezas,
prepare abrigos contra o amanhã.
Mas ninguém escapa das mãos de Deus.
O homem pode fechar todas as portas,
mas não pode fechar o céu.
Pode guardar seus tesouros,
mas não pode comprar um único instante.
A vida continua sendo mistério,
perda e livramento,
queda e milagre,
dor e graça.
E talvez o paraíso
seja perceber aquilo que ainda temos
antes que a ausência nos ensine seu valor.
Uma mente em paz.
Uma dor que passou.
Uma tempestade que não nos levou.
Um dia tranquilo.
Uma mão estendida.
Um coração que ainda consegue agradecer.
Isso já é riqueza.
Porque enquanto o mundo se dissolve
na ansiedade de sobreviver,
o Reino se constrói
na disposição de servir.
Limpar.
Organizar.
Trabalhar.
Edificar.
Cuidar.
Não esperar que a vida tenha sentido
para então viver,
mas viver de tal maneira
que o próprio caminho produza sentido.
E há poder naquilo que dizemos.
Antes da forma,
há a palavra.
Antes da obra,
há o pensamento.
Antes da luz,
há o chamado:
Haja luz.
Talvez nossas palavras também construam mundos.
Talvez aquilo que repetimos
se torne aquilo que enxergamos.
Talvez a mente precise aprender
a caminhar entre dois abismos:
nem a arrogância de quem pensa saber tudo,
nem a apatia de quem desistiu de saber.
O caminho do meio.
Enquanto uns procuram esquecer o vazio
em vícios, excessos e prazeres,
outros transformam até a fé
em promessa de riqueza.
E Deus vai ficando para trás,
substituído pela promessa
de uma vida confortável.
Mas servir não é negociar com o céu.
Gratidão não é investimento.
Fé não é contrato.
E o amor não pode ser usado
como moeda de troca.
O mundo pode ficar mais instável.
As fronteiras podem se mover.
As economias podem ruir.
As multidões podem migrar.
As notícias podem trazer
um novo medo a cada manhã.
Mas existe algo que nenhuma crise deveria destruir:
a coesão.
Quando tudo se separa,
aproximar-se é resistência.
Quando tudo se torna morno,
manter a chama é coragem.
Quando o mundo perde a ternura,
ser humano torna-se um ato consciente.
Talvez seja isso
que significa manter a luz acesa.
Não negar a escuridão.
Não fingir que ela não existe.
Mas caminhar dentro dela
sem permitir que ela caminhe dentro de nós.
Porque o amor pode esfriar.
O mundo pode se tornar morno.
As pessoas podem se cansar,
se fechar,
se perder.
Mas enquanto houver alguém
disposto a servir,
a agradecer,
a trabalhar,
a unir,
a perdoar,
a construir,
a chama ainda estará viva.
E talvez seja justamente aí
que começa o Reino:
quando, diante de um mundo
que esqueceu como amar,
alguém decide
não esquecer.
O AMOR NO TEMPO DO TÉDIO
Dizia a profecia em tom solene e frio
Que o amor de quase todos se apagaria em dor,
Não apenas no estrondo da guerra e do vazio,
Mas no tédio manso que rouba nosso ardor.
O mundo se tornou um teatro de ilusão,
Com telas reluzentes e conteúdos mornos,
Buscamos velhos filmes, buscando emoção,
Para fugir da apatia e dos seus contornos.
A entropia avança no silêncio da rotina,
O caos sempre nos força a andar e a viver;
Quem busca o Reino de Deus encontra a medicina,
Limpando a própria alma e aprendendo a servir.
Pois se o inferno queima na dor do esquecimento,
O simples alívio já é o próprio paraíso:
Um sopro de paz em meio ao sofrimento,
A luz do Verbo sagrado em um olhar preciso.
Diante das tempestades e sombras do amanhã,
Não nos deixemos vencer pela frieza do chão;
Unidos na verdade, na fé pura e cristã,
Guardemos no amor a verdadeira coesão.
”https://www.youtube.com/watch?v=BQ0-RZ-OojI
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