A Confusão, Velha Amiga
Não tenha medo da confusão.
Ela chega quando alguma coisa antiga
já não consegue explicar o mundo,
quando uma porta se abre
onde antes havia apenas parede.
Primeiro vem o espanto:
“Eu não sabia disso.”
Depois, o silêncio.
Depois, a dúvida.
Depois, mil pensamentos
correndo dentro da cabeça
como folhas agitadas pelo vento.
E talvez seja isso aprender:
perder, por alguns instantes,
a certeza de quem éramos
para descobrir quem podemos ser.
A confusão é uma velha amiga.
A curiosidade, sua irmã.
Só não devemos morar para sempre
dentro delas.
Porque há momentos
em que a mente sobe tão alto
que esquece o chão.
Então é preciso voltar.
Sentir a água na cabeça,
a terra debaixo dos pés,
o peso do próprio corpo,
o caminho percorrido por uma caminhada,
o silêncio de estar sozinho
ouvindo os próprios pensamentos.
Não para fugir do mundo,
mas para voltar a ele.
Porque também existe loucura
em esquecer a realidade
enquanto tentamos compreendê-la.
E existe outra loucura
em acreditar que já compreendemos tudo.
Entre uma e outra
há um lugar estreito:
o equilíbrio.
Nem o excesso de austeridade,
nem o abandono de si.
Nem viver apenas pelo prazer,
nem transformar a própria existência
num castigo.
Nem ambição que nunca se satisfaz,
nem conformismo que desistiu de desejar.
É preciso aprender
a caminhar entre os extremos
sem pertencer completamente a nenhum deles.
A vida não pede perfeição.
Pede presença.
Porque enquanto pensamos
no que poderia acontecer amanhã,
alguém sofre hoje.
Enquanto esperamos o momento certo,
o momento passa.
Enquanto adiamos o abraço,
a pessoa pode desaparecer.
Enquanto dizemos
“um dia eu faço”,
a vida continua fazendo
suas próprias escolhas.
A morte não pede licença.
Por isso, se alguém surgir
na tua lembrança,
não ignores.
Talvez seja apenas pensamento.
Talvez seja preocupação.
Talvez seja Deus
lembrando que ainda estamos vivos.
Mande uma mensagem.
Converse.
Pergunte como está.
Interaja com a vida.
Porque somos facilmente arrastados
pelo empurra-empurra do mundo.
Como folhas numa árvore
quando o vento passa:
todas se movem juntas,
todas seguem a mesma direção,
todas parecem uma só coisa.
Mas você não nasceu
para ser apenas uma folha ao vento.
Você nasceu para escolher.
Para parar.
Para perguntar:
Quem sou eu?
O que quero fazer?
O que devo fazer agora?
É nesse instante
que nasce o indivíduo.
E talvez seja aí
que Deus encontre espaço
para viver através de nós.
Não porque sejamos grandes.
Mas justamente porque sabemos
que somos pequenos.
Tudo é sagrado
quando percebemos a fragilidade de tudo.
A casa.
O quarto.
O próprio corpo.
Os animais.
As pessoas.
O trabalho.
O tempo.
A mente.
Até aquilo que parece insignificante
carrega alguma coisa de eterno.
E quando compreendemos isso,
já não conseguimos olhar para a vida
como antes.
Cuidar deixa de ser obrigação.
Torna-se devoção.
Trabalhar deixa de ser apenas trabalho.
Torna-se serviço.
Viver deixa de ser simplesmente existir.
Torna-se resposta.
Porque alguém, em algum lugar,
está segurando a dor
para que outro possa conhecer o alívio.
E talvez amanhã
sejamos nós a carregar o peso.
Talvez hoje
sejamos nós os que respiram em paz.
Por isso, gratidão.
Não apenas pelo que temos,
mas também pelo que não precisamos viver.
Pelos desastres que não chegaram.
Pelas dores que não conhecemos.
Pelas noites das quais despertamos.
A realidade é grande demais
para caber nas certezas humanas.
Aquilo que imaginamos
pode nunca acontecer.
E aquilo que jamais imaginamos
pode surgir diante de nós.
Por isso aquela antiga sabedoria
continua tão verdadeira:
não importa o que você imagine,
a realidade será diferente.
E talvez isso seja uma bênção.
Porque se tudo acontecesse
exatamente como imaginamos,
não haveria surpresa.
Não haveria descoberta.
Não haveria aprendizado.
Não haveria espaço
para a graça.
Então caminhemos.
Com os pés na terra
e os olhos voltados para o alto.
Aprendendo a suportar a confusão,
sem nos perder dentro dela.
Aprendendo a desejar,
sem sermos escravos do desejo.
Aprendendo a trabalhar,
sem esquecer de viver.
Aprendendo a descansar,
sem abandonar aquilo que importa.
Aprendendo a amar
antes que seja tarde.
E quando Deus chamar,
que não tenhamos vergonha
de responder.
Que possamos reconhecer
o sagrado onde ele já está:
naquilo que respiramos,
naquilo que cuidamos,
naqueles que encontramos,
naquilo que ainda podemos transformar.
Porque talvez a grande pergunta
nunca tenha sido
“o que é realidade?”
Talvez seja:
“o que farei
com a realidade que me foi dada?”
E enquanto houver vida,
a resposta ainda poderá ser escrita.

O Paradoxo Sagrado
De perto, diz o sábio, ninguém é normal,
Nesse palco do teatro onde a mente vaga,
Buscando no abstrato o sinal vital,
Num labirinto que a razão apaga.
A mente alta se perde no elemento ar,
Confusa, à beira do próprio abismo,
Mas a confusão vem para ensinar
Que o saber renasce do cataclismo.
Aterra os pés na poeira do chão,
Molha a cabeça na água da bica,
Pois na matéria e na comunhão
A sutil verdade se simplifica.
Tudo é sagrado, do quarto ao jardim,
O corpo, o gatinho, o pão compartilhado,
Não há inutilidade sem fim
No equilíbrio que nos foi desenhado.
Alguns sustentam o peso da dor
Para que o alívio flua em algum lugar,
Mártires da neve sob o frio horror,
Para que o outro possa respirar.
Na culpa escura, a alma se entrega à entropia,
Recusa o perdão que a quer libertar,
Prefere o castigo, a melancolia,
No xadrez eterno sem poder voltar.
E no paradoxo do eterno sonhar:
Quem chora na cela quer despertar,
E quem é feliz teme o dia seguinte,
Com medo que o sonho vá se acabar.
Que a graça nos curve à neutralidade,
Nesse teatro onde Deus quer habitar,
Que sejamos felizes em tal intensidade,
Sem saber se vivemos ou estamos a sonhar.
”https://www.youtube.com/watch?v=EMfILgM_vZc
Amém! Deus conversa conosco! Luz p’ra nós!