Viver é Queimar
Há momentos
em que a metáfora deixa de ser metáfora,
e aquilo que era pensamento
ganha temperatura,
ganha corpo,
ganha realidade.
Foi diante do fogo
que compreendi:
viver é queimar.
Somos lenha
lançada ao incêndio do tempo,
madeira que estala,
que perde a forma,
que se transforma
enquanto entrega ao fogo
aquilo que já não pode permanecer.
E talvez Deus não nos coloque no fogo
para nos destruir,
mas para descobrir
o que podemos produzir
quando já não existe
nenhuma sombra onde nos esconder.
Porque há uma verdade
que o frio não consegue apagar:
ficar parado também é morrer.
O alívio que nunca termina
vira estagnação.
A segurança que jamais se arrisca
vira prisão.
E aquele que foge continuamente do fogo
talvez esteja fugindo
da própria vida.
Há dias em que limpar a casa
é uma oração.
Lavar o chão,
erguer o corpo cansado,
organizar aquilo que estava esquecido,
cuidar das plantas,
cortar a lenha,
colocar cada coisa em seu lugar…
E então perceber, quase em silêncio,
que existe uma alegria estranha
em simplesmente estar vivo.
Não a palavra repetida:
“gratidão”.
Mas a gratidão que acontece
antes da palavra.
Aquela que nasce
quando as mãos trabalham
e a consciência percebe
que até o esforço
pode ser uma dádiva.
Somos feitos de movimento.
Pensamento gera pensamento,
símbolo encontra símbolo,
sinapse encontra sinapse,
e aquilo que antes parecia separado
começa a convergir.
Uma profecia.
Um símbolo.
Um pensamento.
Um instante diante do fogo.
E, de repente,
tudo parece falar
a mesma língua.
A metáfora corre
e encontra a realidade.
A consciência se expande
e o mundo parece maior
do que a imaginação poderia suportar.
É então que vem o calafrio.
Porque enxergar a grandeza
também revela a pequenez.
E diante do infinito
o homem treme.
Mas até essa angústia
pode alimentar a alma.
A verdade é fria.
Nua.
Neutra.
Às vezes assustadora.
Talvez por isso
a porta seja estreita.
Poucos desejam atravessá-la
quando descobrem
que do outro lado
não existe o conforto das ilusões.
Existe o dever
de permanecer de pé.
Nas noites frias.
Nos dias escuros.
No caos.
Na dúvida.
No silêncio.
É ali
que o Guerreiro da Verdade
é forjado.
Enquanto o mundo se agita
como uma floresta em chamas,
enquanto consciências se chocam,
enquanto o ruído cresce
até o diálogo desaparecer,
é preciso continuar caminhando.
Não contra o mundo
por orgulho.
Mas em direção à verdade
por sintonia.
E antes de querer transformar tudo,
é preciso transformar o próprio espaço.
O corpo.
A mente.
A casa.
O trabalho.
As finanças.
As pequenas coisas
que revelam
se existe realmente disciplina
por trás das grandes palavras.
Porque não há esconderijo
para quem decidiu enxergar.
A sujeira acumulada
também fala.
O pensamento abandonado
também fala.
O corpo negligenciado
também fala.
Tudo aquilo que tocamos
carrega uma parte
daquilo que somos.
Por isso,
cuide do fogo.
Cuide da lenha.
Cuide da casa
onde a consciência habita.
Recicle sua energia.
Movimente-se.
Trabalhe.
Construa.
Agradeça.
Não para escapar da queimação,
mas para atravessá-la
com os olhos abertos.
Pois talvez a vida
nunca tenha prometido
ser confortável.
Talvez tenha prometido
ser verdadeira.
E a verdade
arde.
Transforma.
Consome aquilo
que precisa morrer
e ilumina aquilo
que ainda pode nascer.
Por isso,
quando o fogo chegar,
não fuja.
Mude sua perspectiva.
Aceite o calor.
Aceite o frio.
Aceite a noite.
Aceite a luz.
Porque viver
não é permanecer intacto.
É permitir-se transformar.
É entrar no fogo
e descobrir,
entre cinzas e brasas,
aquilo que realmente somos.
Viver é queimar.
E talvez a maior tragédia
não seja arder.
Talvez seja
nunca ter vivido
o suficiente
para descobrir
o que o fogo faria de nós.

CONVERGÊNCIA METAFÓRICA: VIVER É QUEIMAR
Na madrugada fria, a lenha encontra o fogo,
O silêncio do inverno desacelera o mundo,
Enquanto a mente busca o sentido mais profundo
De estar presente e vivo no meio deste jogo.
A fogueira crepita e a ideia se revela:
A metáfora cruza a fronteira da ilusão,
O sangue gela nas veias da percepção,
E a realidade queima mais forte do que ela.
Viver não é o alívio que busca a estagnação,
Nem o fugir contínuo da dor ou do calor;
Viver é ser a lenha entregue ao Criador,
Na alquimia sagrada de cada transformação.
Lavar o chão ao alvorecer, sentir a gratidão,
Agradecer por ser grato na simples existência,
Alinhar a casa, o corpo e a consciência
Para suportar a noite e a escuridão.
Pois na floresta densa e no ruído do mundo,
Onde muitos preferem a inércia e o adormecer,
Quem aceita o Fogo aprende a renascer,
Transformando o momento em um saber profundo.
”https://www.youtube.com/watch?v=I_pGja3be9E
Que dahora. Poema que toca a alma. Lpn
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