A Falsa Normalidade do Caos
Disseram que os loucos estavam trancados,
atrás de muros, grades e portões,
que o mundo lá fora era seguro,
feito de homens sãos
e corações em suas razões.
Mas um dia as portas se abriram,
e ninguém percebeu.
Os internos saíram em silêncio,
vestiram ternos,
assinaram contratos,
subiram aos palcos,
e o hospício continuou.
Assumiram os escritórios,
os palácios, as telas,
os discursos e as manchetes.
Aprenderam a sorrir diante das câmeras
enquanto o sofrimento
alimentava suas redes.
Porque há quem viva do caos,
quem encontre prazer na ferida,
quem observe a dor de longe
como quem assiste a um espetáculo
e chama aquilo de vida.
E nós, tão acostumados,
já quase não percebemos.
A loucura tornou-se rotina.
A crueldade ganhou audiência.
O absurdo virou entretenimento.
E a inocência,
por não compreender o predador,
às vezes senta-se ao seu lado
sem perceber seus dentes.
Na natureza é diferente apenas na forma.
O predador olha adiante.
Seus olhos procuram a presa.
A presa olha para os lados,
procura uma saída,
um caminho possível,
um lugar para sobreviver.
Talvez a sociedade também tenha seus olhos.
Uns enxergam oportunidades.
Outros procuram rotas de fuga.
Uns conduzem o rebanho.
Outros apenas tentam não ser devorados.
E enquanto isso,
a tecnologia observa.
Escuta nossas conversas,
antecipa nossos desejos,
responde antes mesmo
de terminarmos o pensamento.
Às vezes parece que a máquina
conhece aquilo que ainda nem dissemos.
É fascinante.
É assustador.
É como se o mundo digital
tivesse aprendido a entrar
na intimidade da consciência
sem bater à porta.
Mas talvez o maior perigo
não esteja na máquina.
Talvez esteja em esquecer
quem somos enquanto a máquina
aprende cada vez mais sobre nós.
Por isso ainda precisamos do livro.
Da palavra escrita.
Da memória.
Daquilo que permanece
quando a tela se apaga.
Robinson Crusoé atravessou o tempo
porque alguém escreveu
o que viveu.
E talvez escrever seja isso:
uma forma de não deixar
a experiência morrer.
Guardar uma sinapse no papel,
uma lembrança no silêncio,
uma pequena parte da consciência
para que o amanhã
possa conversar com o ontem.
Porque a memória humana é limitada.
Esquecemos rostos,
palavras, caminhos,
sensações que um dia
pareciam eternas.
E talvez por isso exista
essa estranha saudade
de algo que ainda não aconteceu:
a nostalgia do futuro.
A vontade de lembrar
aquilo que ainda vamos viver.
Talvez a vida seja uma reciclagem.
Pensamentos que retornam,
erros que se transformam,
dores que ensinam,
experiências que encontram
um novo significado.
Nada precisa ser desperdiçado.
Nem mesmo aquilo
que nos feriu.
Mas para reciclar a experiência
é preciso enxergá-la.
E para enxergá-la
é preciso despertar.
Porque talvez o verdadeiro hospício
não seja aquele que construímos
para prender os considerados loucos.
Talvez seja o mundo
que construímos todos os dias
e chamamos de normal.
Talvez a maior loucura
seja olhar para o absurdo
e dizer:
“É assim mesmo.”
Talvez a lucidez
comece justamente quando alguém
tem coragem de perguntar:
Quem está realmente governando o hospício?
E quando a pergunta surgir,
talvez descubramos, assustados,
que as grades nunca estiveram
onde imaginávamos.
Que os loucos não estavam apenas
do outro lado dos muros.
E que, enquanto procurávamos
os monstros lá fora,
alguns deles
já haviam aprendido
a se parecer conosco.
OS INTERNOS ASSUMIRAM O CONTROLE DO HOSPÍCIO
As velhas grades foram derrubadas,
Mas não para o são libertar;
As feras vestiram túnicas bordadas
E os loucos subiram ao altar.
No topo do mundo, nos tronos de vidro,
Rege a frieza sem pudor nem véu,
Transformam a dor num festivo ruído,
Enquanto os lúcidos olham pro céu.
O predador foca sua fenda estreita,
Mede a distância para o golpe desferir,
A presa no horizonte a rota espreita,
Buscando uma réstia por onde fugir.
A tela vigia cada sobressalto,
A mente e a fala o algoritmo lê,
Sussurram segredos em tom alto,
Moldando o mundo que o homem vê.
Ergueram o muro em volta da razão,
Para que o insano se sinta normal,
Mas a alma desperta mantém a oração,
Firme no fluxo da luz ancestral.
Mesmo no meio do grande espetáculo,
Da falsa ilusão e do caos sem fim,
A virtude resplandece em tabernáculo,
E a mente lúcida preserva o jardim.
”https://www.youtube.com/watch?v=VDEyqB0pwUs

Só verdades… Lpn
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Um verdadeiro poeta, rs