A Dor Também Ensina
Quando a Queda Encontra Asas
Há dias em que o céu parece estranho,
e o mundo perde o seu desenho,
como se alguma coisa invisível
mudasse o rumo do tempo
sem pedir licença.
Há dias em que a mente também muda,
e aquilo que antes parecia firme
começa a estremecer por dentro.
É nesses dias
que o equilíbrio se revela.
Não basta buscar o alto
se os pés não conhecem o chão.
Não basta possuir grandes ideias
se o próprio coração
não sabe conduzir suas forças.
Existe em cada um
uma energia que pede direção,
um desejo que pede consciência,
uma vontade que pode construir
ou consumir.
A austeridade pode ser virtude,
a castidade pode ser escolha,
o domínio de si pode ser grandeza —
mas nenhuma força permanece nobre
quando perde o equilíbrio.
Conhecer os próprios limites
também é sabedoria.
Reconhecer a fraqueza
não é se render a ela.
É enxergá-la.
Reconhecer a própria força
não é se embriagar de orgulho.
É aprender a utilizá-la.
Cada defeito pode ser uma escola.
Cada qualidade, uma responsabilidade.
Como nos talentos recebidos:
não fomos chamados
apenas para guardar aquilo que temos,
mas para descobrir
o que podemos fazer com isso.
E então vem a ansiedade.
Ela aperta o peito,
estreita o horizonte,
faz parecer que o instante presente
é o único tempo que existe.
Mas o instante passa.
Até a vertigem passa.
É preciso aprender
a respirar dentro da tempestade,
a permanecer sereno
quando tudo dentro de nós
grita para fugir.
Há quem enfrente montanhas
onde um passo errado basta
para transformar a vida em queda.
E, ainda assim,
o coração aprende a permanecer.
Talvez viver seja isso:
não eliminar todo medo,
mas aprender a atravessá-lo.
Porque viver também dói.
A vida queima.
A vida pesa.
A vida nos coloca diante da perda,
da doença,
da impotência
e daquilo que não podemos consertar.
Às vezes,
até um pequeno animal ferido
é capaz de abrir em nós
um abismo inteiro.
E quando a dor chega,
aceitar uma mão estendida
também pode ser coragem.
Não precisamos vencer tudo sozinhos.
Há sofrimentos que não diminuem
porque alguém encontrou uma resposta,
mas porque alguém permaneceu ao nosso lado.
Talvez a oração mais profunda
não seja:
“Que eu nunca mais sofra.”
Talvez seja:
“Dá-me força
para atravessar aquilo
que hoje parece impossível.”
Porque existe uma escuridão
que não precisa ser negada.
Precisa ser atravessada.
E para atravessá-la,
é preciso encontrar algo maior.
Uma causa.
Um propósito.
Uma pessoa.
Um animal.
Uma obra.
Um sonho.
Um amanhã que ainda não chegou.
Quando tudo parece queda livre,
um propósito pode criar asas.

E então percebemos
que o sentido também mora
nas coisas aparentemente pequenas:
conversar,
conviver,
respirar,
cuidar,
observar a natureza,
sentir a presença de um animal,
esperar pelo próximo dia.
O futuro ainda existe.
Mesmo quando não conseguimos enxergá-lo.
Há coisas que ainda não aconteceram.
Há caminhos que ainda não conhecemos.
Há encontros que ainda não tivemos.
Há beleza que ainda não vimos.
Por isso,
quando a mente disser
que não existe saída,
não é preciso acreditar imediatamente nela.
Respire.
Espere.
Procure alguém.
Aceite ajuda.
Deixe o tempo abrir
aquilo que hoje parece fechado.
A vida não promete ausência de sofrimento.
Promete apenas
que o próximo instante
ainda não foi escrito.
E enquanto houver um próximo instante,
há possibilidade.
Enquanto houver possibilidade,
há caminho.
E enquanto houver caminho,
mesmo no meio da noite,
alguma coisa em nós
ainda pode se levantar.
Não para nunca mais cair.
Mas para aprender
que até depois da queda
é possível criar asas.

ENTRE NUVENS E O TEMPO
No céu cinzento de um tempo incerto,
O vento sopra a poeira e o ardor,
Buscar a paz no peito aberto,
No meio da seca e de tanta dor.
A mente oscila na tempestade,
Procura o prumo, a contenção,
Entre a fraqueza e a claridade,
Vencer os medos do coração.
A dor é real, o chão estremece,
Na noite escura se aprende a andar,
Se o corpo queima e a alma padece,
Na serenidade há de se firmar.
Não rogo ao céu que apague a lida,
Mas peço forças para sustentar,
Cuidar do outro, honrar a vida,
No breu do mundo ser luz e ar.
Pois o teatro ainda nos chama,
No voo firme de quem tem fé,
Na chama viva que ainda ama,
A alma curva, mas fica em pé.
”https://www.youtube.com/watch?v=qVLRSrMgbsU
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