Setembro 13, 2026

Viver é Queimar

Por Rogerio Souza
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Há momentos
em que a metáfora deixa de ser metáfora,
e aquilo que era pensamento
ganha temperatura,
ganha corpo,
ganha realidade.

 

Foi diante do fogo
que compreendi:

viver é queimar.

 

Somos lenha
lançada ao incêndio do tempo,
madeira que estala,
que perde a forma,
que se transforma
enquanto entrega ao fogo
aquilo que já não pode permanecer.

 

E talvez Deus não nos coloque no fogo
para nos destruir,
mas para descobrir
o que podemos produzir
quando já não existe
nenhuma sombra onde nos esconder.

 

Porque há uma verdade
que o frio não consegue apagar:

ficar parado também é morrer.

 

O alívio que nunca termina
vira estagnação.
A segurança que jamais se arrisca
vira prisão.
E aquele que foge continuamente do fogo
talvez esteja fugindo
da própria vida.

 

Há dias em que limpar a casa
é uma oração.

Lavar o chão,
erguer o corpo cansado,
organizar aquilo que estava esquecido,
cuidar das plantas,
cortar a lenha,
colocar cada coisa em seu lugar…

 

E então perceber, quase em silêncio,
que existe uma alegria estranha
em simplesmente estar vivo.

Não a palavra repetida:

“gratidão”.

 

Mas a gratidão que acontece
antes da palavra.

Aquela que nasce
quando as mãos trabalham
e a consciência percebe
que até o esforço
pode ser uma dádiva.

 

Somos feitos de movimento.

Pensamento gera pensamento,
símbolo encontra símbolo,
sinapse encontra sinapse,
e aquilo que antes parecia separado
começa a convergir.

 

Uma profecia.
Um símbolo.
Um pensamento.
Um instante diante do fogo.

 

E, de repente,
tudo parece falar
a mesma língua.

 

A metáfora corre
e encontra a realidade.

A consciência se expande
e o mundo parece maior
do que a imaginação poderia suportar.

 

É então que vem o calafrio.

Porque enxergar a grandeza
também revela a pequenez.

E diante do infinito
o homem treme.

 

Mas até essa angústia
pode alimentar a alma.

A verdade é fria.

Nua.

Neutra.

Às vezes assustadora.

 

Talvez por isso
a porta seja estreita.

Poucos desejam atravessá-la
quando descobrem
que do outro lado
não existe o conforto das ilusões.

 

Existe o dever
de permanecer de pé.

Nas noites frias.
Nos dias escuros.
No caos.
Na dúvida.
No silêncio.

 

É ali
que o Guerreiro da Verdade
é forjado.

 

Enquanto o mundo se agita
como uma floresta em chamas,
enquanto consciências se chocam,
enquanto o ruído cresce
até o diálogo desaparecer,

é preciso continuar caminhando.

 

Não contra o mundo
por orgulho.

Mas em direção à verdade
por sintonia.

 

E antes de querer transformar tudo,
é preciso transformar o próprio espaço.

 

O corpo.

A mente.

A casa.

O trabalho.

As finanças.

As pequenas coisas
que revelam
se existe realmente disciplina
por trás das grandes palavras.

 

Porque não há esconderijo
para quem decidiu enxergar.

A sujeira acumulada
também fala.

 

O pensamento abandonado
também fala.

O corpo negligenciado
também fala.

 

Tudo aquilo que tocamos
carrega uma parte
daquilo que somos.

 

Por isso,

cuide do fogo.

Cuide da lenha.

Cuide da casa
onde a consciência habita.

 

Recicle sua energia.

Movimente-se.

Trabalhe.

Construa.

Agradeça.

 

Não para escapar da queimação,

mas para atravessá-la
com os olhos abertos.

 

Pois talvez a vida
nunca tenha prometido
ser confortável.

 

Talvez tenha prometido
ser verdadeira.

E a verdade
arde.

Transforma.

 

Consome aquilo
que precisa morrer
e ilumina aquilo
que ainda pode nascer.

 

Por isso,

quando o fogo chegar,

não fuja.

 

Mude sua perspectiva.

Aceite o calor.

Aceite o frio.

Aceite a noite.

Aceite a luz.

 

Porque viver
não é permanecer intacto.

É permitir-se transformar.

É entrar no fogo
e descobrir,
entre cinzas e brasas,
aquilo que realmente somos.

 

Viver é queimar.

E talvez a maior tragédia
não seja arder.

 

Talvez seja
nunca ter vivido
o suficiente
para descobrir
o que o fogo faria de nós.

 

 

O Fogo que Não se Apaga

 

 

 

          CONVERGÊNCIA METAFÓRICA: VIVER É QUEIMAR               

             Na madrugada fria, a lenha encontra o fogo,              

              O silêncio do inverno desacelera o mundo,               

            Enquanto a mente busca o sentido mais profundo            

             De estar presente e vivo no meio deste jogo.             

               A fogueira crepita e a ideia se revela:                

               A metáfora cruza a fronteira da ilusão,                

                O sangue gela nas veias da percepção,                 

             E a realidade queima mais forte do que ela.              

             Viver não é o alívio que busca a estagnação,             

               Nem o fugir contínuo da dor ou do calor;               

               Viver é ser a lenha entregue ao Criador,               

              Na alquimia sagrada de cada transformação.              

            Lavar o chão ao alvorecer, sentir a gratidão,             

            Agradecer por ser grato na simples existência,            

               Alinhar a casa, o corpo e a consciência                

                 Para suportar a noite e a escuridão.                 

             Pois na floresta densa e no ruído do mundo,              

            Onde muitos preferem a inércia e o adormecer,             

                Quem aceita o Fogo aprende a renascer,                

            Transformando o momento em um saber profundo.            

 

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=I_pGja3be9E


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